O delegado Humberto Mácola, que coordena o Departamento de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC), explicou, em entrevista ao A10+ e TV Antena 10, como funcionava o esquema de golpes desarticulado após a Operação Chip Falso, deflagrada em Teresina. Nesta segunda fase, foi preso o homem apontado como o chefe do grupo criminoso.
Pelo menos 30 ordens judicias devem ser cumpridas com 16 mandados de prisão temporária. Até o momento, nove pessoas foram presas. Elas são suspeitas de fornecer os próprios dados pessoais para viabilizar fraudes eletrônicas junto a operadoras de telefonia.Os investigados acessavam indevidamente sistemas internos de operadoras para realizar trocas fraudulentas de titularidade de linhas telefônicas, prática conhecida como SIM Swap.
"As pessoas que entregaram seus cadastros, seus acessos, suas biometrias, também foram presas, sabiam o que estava acontecendo. Através do sistema de operadores de telefone, eles conseguiam fazer uma mudança não autorizada de titularidade de um cidadão para o criminoso. E, a partir daí, conseguiam fazer outros tipos de golpes. Você imagina, a pessoa com a linha telefônica, que é a vida da pessoa hoje, ela consegue pedir o código de verificação do banco, ao invés de chegar para o seu titular original, legítimo, chega para o criminoso. E, a partir daí, ele entra, tem acesso a banco, tem acesso à vida financeira da pessoa para aplicar outros golpes", disse.
Para o golpe eram utilizados documentos falsificados e selfies biométricas manipuladas. Após obter o controle das linhas, os criminosos utilizavam os números das vítimas para aplicar diferentes tipos de crimes, incluindo compras fraudulentas com cartões de crédito, clonagem de contas do WhatsApp e invasão de contas bancárias, com realização de movimentações financeiras indevidas.
O delegado destacou que as pessoas que forneciam os dados eram cooptadas em eventos e recebiam vantagens de até R$ 300. "Por cada cadastro, pelo menos, entre 100 e 300 reais, cada pessoa recebia ao entregar sua biometria facial. Algumas alegam que achavam que estavam fazendo um plano pós-pago de linha telefônica, mas como é que você vai fazer um plano pós-pago e recebe por isso? Então, no mínimo, alguma coisa errada estava acontecendo. Através das festas, havia esse recrutamento. Isso se espalhou pela região: que era só você chegar e entregar ali o seu cadastro, e você recebia um valor. Atraiu essas pessoas que foram até esse local e entregaram toda a sua vida de biometria facial, de cadastro, para entrar nesse esquema", disse.
De acordo com as investigações, o núcleo criminoso, sediado no Piauí, fez vítimas em diferentes estados, entre eles São Paulo, Maranhão, Pernambuco, Bahia, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Mato Grosso e Minas Gerais. A abrangência dos crimes demonstra a atuação estruturada e a capacidade de expansão interestadual do grupo. O valor do prejuízo das vítimas ainda está sendo contabilizado.
"É uma operação exitosa, nós estamos muito satisfeitos e as investigações vão continuar, partindo aqui do Piauí para todo o Brasil. Tivemos vítimas em quase todos os estados da federação, e elas estão sendo ouvidas também. Nós temos pelo menos 100 vítimas no Brasil todo, e foram utilizadas aqui no Piauí, pelo menos 120 pessoas, que entregaram seus dados e biometrias para participar da operação. Não adianta você dizer que não sabia para o que você estava entregando o seu número, estava entregando a sua conta bancária, estava entregando toda a sua vida", disse.
Orientações
Caso a pessoa tenha perdido acesso a contas telefônicas, o delegado explicou que é necessário acionar a operadora e também a polícia. "Se você teve a sua linha telefônica derrubada, perdeu acesso ao WhatsApp, ao Instagram, à linha telefônica, você procura, imediatamente, a sua operadora de telefonia para saber o que foi que aconteceu. Se você demorar muito tempo, a sua linha pode estar sendo utilizada para aplicar golpes. E, em segundo lugar, vá até a delegacia de polícia, registre um boletim de ocorrência, para que o seu nome fique resguardado, e se houver a utilização do seu nome para aplicação de golpe em qualquer lugar do Brasil, o investigador que vai começar aquele procedimento e vai ver que você perdeu a sua linha", ressaltou.