O primeiro debate entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado neste domingo (18) pela Band, deixou uma sensação difícil de ignorar: o país assistiu a um confronto de acusações, provocações e tentativas de constranger o adversário, mas ouviu pouco sobre como os dois pretendem governar o Brasil a partir de 2027. Banco Master, fraudes no INSS, familiares sob questionamento e suspeitas de corrupção ocuparam boa parte do encontro. A discussão sobre propostas concretas, metas, custos e resultados ficou em segundo plano. Não faltaram frases de efeito. Faltou transformar o debate em uma oportunidade para explicar ao eleitor o que, de fato, mudaria na vida da população.
Lula tentou colocar Flávio na defensiva ao cobrar explicações sobre os recursos associados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e ao filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. “O que você fez com esse dinheiro?”, perguntou o presidente, referindo-se aos R$ 134 milhões que o senador teria solicitado para financiar o projeto. Flávio afirmou que o dinheiro seria destinado ao filme e disse já ter explicado a operação, mas não apresentou, no debate, uma resposta convincente.
Flávio, por sua vez, apostou no caso envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e nas suspeitas relacionadas às fraudes no INSS. O senador tentou transferir para Lula o peso político do escândalo, enquanto o presidente respondeu que a investigação deve seguir seu curso e afirmou que o filho não vai se esconder. O problema é que a cobrança por transparência perdeu espaço para a troca de acusações familiares. Flávio também foi questionado sobre a relação entre uma empresa de sua propriedade e companhias ligadas ao chamado “Careca do INSS”. Em vez de esclarecer os fatos com precisão, o debate transformou suspeitas complexas em munição eleitoral. Lula também não saiu ileso: exagerou ao afirmar que o PIB só voltou a crescer durante seus governos, ignorando períodos de crescimento superior a 3% sob Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro. Quando os dois recorrem a dados imprecisos e acusações seletivas, quem perde é o eleitor.
As mudanças de posição na reta final da campanha ajudam a entender o cálculo eleitoral por trás do confronto. Flávio, que havia chamado o fim da escala 6x1 de medida “oportunista” e “eleitoreira”, mudou de posição e votou a favor da proposta no Senado. No debate, justificou a decisão dizendo que ouviu os trabalhadores. Lula ironizou a mudança, mas também alterou o discurso sobre outro tema sensível. Historicamente contrário à redução da maioridade penal, o PT passou a defender, na reta final, a redução de 18 para 16 anos em casos de crimes hediondos. Lula declarou ser favorável à mudança, embora tenha defendido que a discussão ocorra separadamente da PEC da Segurança Pública. É legítimo rever posições, mas duas guinadas em temas polêmicos, às vésperas da votação, levantam uma pergunta inevitável: estamos diante de convicções amadurecidas ou de movimentos calculados para alcançar eleitores indecisos?
Também houve propostas, mas muitas apareceram como slogans, sem detalhamento suficiente para permitir uma comparação séria. Flávio prometeu endurecer o combate ao crime, classificar facções como organizações narcoterroristas e ampliar vagas no sistema prisional. Lula defendeu a PEC da Segurança Pública e a criação de um ministério para coordenar ações federais com estados e municípios. Na economia, o senador falou em reduzir juros, renegociar dívidas e criar um Ministério da Prosperidade; o presidente recorreu ao legado de seus governos, à distribuição de renda e a programas sociais. São assuntos relevantes, mas faltaram respostas consistentes sobre financiamento, cronogramas, indicadores e mecanismos de execução. Lula parece confiar que os números e as realizações do passado bastam para renovar sua credibilidade. Flávio, por outro lado, tenta se apresentar como alternativa, mas precisa responder com mais clareza às denúncias que atingem seu entorno e demonstrar como transformaria promessas em políticas públicas viáveis. Nenhum dos dois conseguiu, no debate, fazer do programa uma prestação de contas convincente sobre o futuro.
No fim, o debate pareceu falar sobretudo aos eleitores que já escolheram seu lado. Lula buscou mobilizar a rejeição à família Bolsonaro; Flávio tentou converter o desgaste do governo em argumento para a mudança. Ambos entregaram frases curtas, gestos e provocações com potencial para circular nas redes sociais. A impressão é que os cortes para plataformas digitais se tornaram parte central da estratégia: cada candidato procurava produzir o momento que sua militância pudesse compartilhar, celebrar e usar contra o adversário. O problema é que um vídeo de quinze segundos pode render aplausos, mas não substitui uma explicação sobre emprego, segurança, saúde, educação, dívida pública ou crescimento econômico.
A uma semana do segundo turno, o Brasil precisava conhecer melhor os projetos de quem quer governá-lo. Saiu do debate sabendo, principalmente, o que um candidato acusa o outro de ter feito. Se esse foi o objetivo, as campanhas cumpriram a tarefa. Se era convencer os indecisos com propostas e respostas, o resultado ficou muito longe do necessário.