O remédio e o veneno: a estratégia dos Bolsonaro alinhada ao protecionismo americano de Trump pode custar caro para a campanha de Flávio

O eleitor tende a fazer uma pergunta simples: quem está defendendo os interesses do Brasil e quem está defendendo interesses externos?

Enquanto a classificação de PCC e CV como organizações terroristas gera dúvidas entre especialistas em segurança, a ofensiva de Trump contra o PIX e a ameaça de tarifas ao Brasil criam um problema político que nem cartas diplomáticas parecem suficientes para resolver

A política costuma produzir situações curiosas. Uma medida apresentada como solução pode acabar gerando problemas ainda maiores. É exatamente esse risco que começa a aparecer na relação entre o bolsonarismo, Donald Trump e os recentes embates entre Estados Unidos e Brasil.

  
O remédio e o veneno: a estratégia dos Bolsonaro alinhada ao protecionismo americano de Trump pode custar caro para a campanha de Flávio Reprodução
 
 
 

A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas foi celebrada por Flávio Bolsonaro (PL) após reuniões com Donald Trump e o secretário de Estado Marco Rubio. O pré-candidato à Presidente da República trouxe para si o mérito de conseguir essa façanha junto ao Governo americano. O discurso é simples e tem forte apelo popular: endurecer o combate às facções criminosas, apesar de deixar de fora as milícias, braço armado que toca o terror e rivaliza com as facções, principalmente em seu estado natal, Rio de Janeiro.

Mas a utilidade prática da medida está longe de ser consenso.

Especialistas em segurança pública lembram que PCC e CV já são organizações criminosas amplamente investigadas e combatidas pelas polícias brasileiras, com recente mudança na legislação que endurece penas e dificulta progressão de regime na cadeia. Mas, essa nova classificação americana não muda automaticamente as leis brasileiras, não amplia o poder de investigação das forças de segurança nacionais e não resolve os problemas estruturais que permitem a expansão dessas facções.

Há ainda outro ponto pouco debatido. Ao elevar PCC e CV ao status de organizações terroristas, os Estados Unidos podem acabar concedendo às facções algo que elas sempre buscaram: projeção internacional. Em vez de enfraquecer sua imagem, a medida pode contribuir para aumentar sua notoriedade global, fortalecendo narrativas de poder utilizadas para intimidação, recrutamento e influência dentro e fora dos presídios. Não apenas isso, dá ao governo americano uma espécie de “green card” para promover ações em território brasileiro para supostamente combater esses grupos, literalmente passando por cima da ordem nacional.

Mas se o debate sobre segurança produz dúvidas, o terreno econômico oferece um risco ainda mais concreto.

O governo Trump passou a mirar diretamente o PIX, sistema brasileiro de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central. Nos Estados Unidos, setores ligados às grandes empresas de cartões e meios tradicionais de pagamento, operadoras de cartões de crédito, enxergam o modelo brasileiro como uma ameaça, justamente porque ele reduziu custos para consumidores e comerciantes e diminuiu a dependência de intermediários privados.

A crítica americana parte de uma lógica difícil de sustentar no Brasil. O PIX não recebeu subsídios para eliminar concorrentes nem fechou o mercado para empresas estrangeiras. Pelo contrário: tornou as transações mais rápidas, baratas e acessíveis para milhões de brasileiros.

Ao mesmo tempo, surgiram ameaças de tarifas contra produtos brasileiros sustentadas por argumentos econômicos que muitos analistas consideram frágeis ou baseados em dados incompletos da relação comercial entre os dois países. Na prática, o discurso protecionista ignora que os Estados Unidos mantêm relações comerciais amplamente favoráveis em diversos segmentos com o Brasil.

É nesse momento que surge o problema político para Flávio Bolsonaro.

O senador enviou carta a Marco Rubio afirmando ser contrário a qualquer tarifaço contra o Brasil e também sustenta que não pediu sanções econômicas durante suas conversas com Trump. Mas, politicamente, isso pode não ser suficiente.

Para boa parte da opinião pública, o que pesa não é apenas o conteúdo das cartas ou das declarações oficiais. Pesa a sequência dos fatos. Primeiro vieram os encontros com Trump e Rubio. Depois, a classificação das facções. Em seguida, as pressões sobre o PIX e as ameaças comerciais contra produtos brasileiros. E mais, depois das publicações do Presidente americano em referência a Flávio Bolsonaro fica difícil manter esse discurso, algo que será utilizado pelo Presidente Lula (PT), que já sente mais próxima a possibilidade de interferência do EUA nas eleições brasileiras para favorecer grupos políticos da direita alinhados ao MAGA.

Em política, percepção costuma valer tanto quanto documentos.

O desafio para Flávio se torna ainda maior porque parte de seu capital político depende da credibilidade. E credibilidade é um ativo que sofre desgaste quando adversários conseguem associar um político a episódios controversos, versões contestadas ou narrativas que não encontram confirmação nos fatos. Nesse ambiente, qualquer explicação passa a enfrentar um público mais desconfiado. O filho 01 de Bolsonaro já enfrenta um forte desgaste com áudios e prints de suas conversas com o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, sobre financiamento milionário do filme sobre a vida do próprio pai.

O resultado é uma armadilha política difícil de administrar. O combate ao crime organizado gera apoio popular. A defesa do PIX também gera apoio popular. A proteção dos empregos e das exportações brasileiras gera apoio popular. Quando esses temas entram em rota de colisão, o eleitor tende a fazer uma pergunta simples: quem está defendendo os interesses do Brasil e quem está defendendo interesses externos?

Se a classificação de PCC e CV foi apresentada como remédio, a pressão sobre o PIX e as ameaças econômicas podem se transformar no veneno para Flávio Bolsonaro. E, na política, o eleitor costuma lembrar muito mais dos efeitos colaterais do que da receita original.