Atualizada às 12h52
Há decisões judiciais que, embora amparadas pela lei, são incapazes de aliviar a dor coletiva. Pelo contrário: aumentam a sensação de distância entre aquilo que a sociedade entende como justo e aquilo que o sistema de Justiça determina.
O caso do policial penal Gilvan Furtado Leite e de sua filha, atropelados em Teresina, é um desses momentos. As vítimas foram atingidas violentamente enquanto trafegavam de motocicleta no bairro Bela Vista. O motorista apontado como suspeito de provocar o acidente apresentava sinais de embriaguez, fugiu sem prestar socorro, deixando as vítimas agonizando enquanto aguardavam ajudam. Ele chegou a ser preso, mas, dias depois, conseguiu liberdade provisória mediante pagamento de fiança e cumprimento de medidas cautelares.
É importante dizer que o Poder Judiciário ainda decidirá sobre a responsabilidade penal do acusado, pois o processo continuará, e a investigação seguirá o seu curso. Porém, afirmar isso não impede outra constatação igualmente legítima: é compreensível a indignação da população.
Afinal, como explicar a uma família que acompanha um pai em estado gravíssimo e uma filha internada que o responsável pelo atropelamento responderá ao processo em liberdade? Como pedir serenidade a uma sociedade cansada de conviver com tragédias provocadas pela combinação de álcool e direção?
Ainda tratamos muitos crimes de trânsito como fatalidades inevitáveis, porém nem todos são. Quem decide dirigir um veículo depois de consumir bebida alcoólica faz uma escolha, e o mesmo ocorre quando alguém decide dirigir em alta velocidade desrespeitando os alertas de fiscalização. Logo, também é justo que toda escolha tem sua consequência.
Ao passo que a Justiça deve agir com equilíbrio, respeitando a lei e as garantias individuais; a sociedade também tem o direito de exigir que crimes dessa natureza sejam tratados com a gravidade que merecem. Não por desejo de vingança, mas por compromisso com a proteção da vida.
O temor manifestado pelos familiares e amigos das vítimas não é apenas sobre este caso específico. É o medo de que a dor vivida por eles se transforme em mais um número nas estatísticas do trânsito nas avenidas da capital. E, diante disso, o mínimo que a sociedade espera é que a lei seja aplicada com rigor, responsabilidade e respeito à vida, valor mais fundamental de todos.