A Polícia Civil do Distrito Federal segue investigando as mortes de três pacientes do Hospital Anchieta, em Taguatinga (DF), que teriam recebido substâncias tóxicas na veia por técnicos de enfermagem. Uma das vítimas morreu ao receber ao menos 10 injeções de desinfetante após ter quatro paradas cardíacas, segundo a polícia.
As vítimas são o supervisor de manutenção da Caesb (Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal) João Clemente Pereira, 63, o carteiro Marcos Moreira, 33, e a professora aposentada Miranilde Pereira da Silva, 75, que estavam internados na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do hospital particular.
Os técnicos de enfermagem Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, 24, Amanda Rodrigues de Sousa, 28, e Marcela Camilly Alves da Silva, 22, estão presos. Marcos Vinícius confessou os crimes ao ser confrontado com as gravações do hospital.
A suspeita é de que os três tenham causado esses óbitos por meio de medicamentos e outras substâncias injetadas nos pacientes.
Famílias cobram justiça
Valéria Leal Pereira, filha do servidor de João Clemente, conta que o pai procurou o hospital no dia 4 de novembro do ano passado com um quadro de dor de cabeça e tontura. No local, foi identificado um coágulo cerebral, que levou a uma cirurgia de emergência.
Apesar de ser um procedimento relativamente simples, João teve uma complicação e passou 14 dias na UTI, com quadro grave, mas estável, que apresentava melhora gradativamente.
“No 14º dia, em 17 de novembro, ele teve três paradas cardíacas, e no dia seguinte, dia 18, mais uma e não resistiu”, detalha Valéria.
Segundo ela, a família desconfiou da causa da morte, já que o motivo da internação foi outro, e o pai não tinha problemas no coração.
“Estamos com um advogado, tivemos contato com a família da outra vítima e vamos unir forças para buscar justiça, porque infelizmente meu pai não vai voltar, mas a gente espera que a justiça seja feita e todos os culpados respondam por isso, tanto os três técnicos quanto o hospital”, desabafou.
No caso de Marcos Moreira, a família informou que ele foi internado em 18 de novembro, sentindo fortes dores no estômago. A suspeita era de pancreatite. Porém, pouco tempo depois, entre os dias 18 e 19 de novembro, ele teve duas paradas cardíacas, o que também causou estranheza à família. Devido à complicação, ele precisou ser intubado e permaneceu internado em estado grave por 14 dias, quando teve mais uma parada cardíaca.
Dessa vez, ele não resistiu. O hospital informou que Marcos teria morrido da inflamação decorrente da suposta pancreatite. A família relata, no entanto, que na mesma semana a diretora do hospital entrou em contato falando que a morte estava sendo investigada como suspeita. Segundo o relato, o hospital teria informado que um técnico de enfermagem teria injetado cloreto de potássio na veia de Marcos.
O composto químico é usado na medicina quando o paciente tem deficiência de potássio, mas também é utilizado na agricultura como fertilizante.
Professora recebeu 10 injeções de desinfetante
Segundo a investigação da Polícia Civil, Miranilde Pereira recebeu quatro doses de um medicamento controlado obtido via receita falsificada, sofrendo paradas cardíacas em cada uma das ocasiões de forma quase imediata, cerca de 10 a 15 segundos após a injeção.
O técnico de enfermagem Marcos Vinícius teria reanimado a mulher em cada uma das vezes. Quando o medicamento acabou, o profissional aplicou ao menos 10 injeções de desinfetante na veia de Miranilde, até ela morrer.
Segundo o delegado Mauricio Iacozzilli, durante o interrogatório, Marcos Vinícius não demonstrou nenhum arrependimento. “Choca a frieza que ele demonstrou”, afirmou.
O que diz o hospital
O Hospital Anchieta informou que identificou “circunstâncias atípicas” relacionadas a três mortes ocorridas em sua UTI e levou o caso para ser investigado pela Polícia Civil. A instituição também disse que demitiu os funcionários envolvidos e informou as famílias sobre as suspeitas. As imagens das câmeras de segurança foram essenciais para identificar os crimes.
“O hospital, enquanto também vítima da ação desses ex-funcionários, solidariza-se com os familiares das vítimas e informa que está colaborando de forma irrestrita e incondicional com as autoridades públicas, reafirmando seu compromisso permanente com a segurança dos pacientes, com a verdade e a justiça”, disse o hospital.
Marcos Vinícius chegou a invadir computadores de médicos para falsificar receitas prescritas, segundo as investigações. A polícia ainda apura a possível motivação para os assassinatos. O suspeito confessou os crimes ao ser confrontado com as gravações do hospital.
O que acontece agora
Os suspeitos foram presos temporariamente por 30 dias. A Polícia Civil informou que, caso o inquérito não seja finalizado até o fim do prazo, vai requisitar a prorrogação da prisão pelo período de mais um mês.
De todo modo, a corporação adiantou que vai solicitar a prisão preventiva dos suspeitos ao fim das investigações. Por enquanto, a investigação corre em segredo de Justiça.