Além da Serra - Ep2: Rochas presentes no município de Brejo do Piauí indicam que há milhões de anos a região era coberta por gelo

Pesquisas revelam evidências de um antigo período glacial no Sul do Piauí e também destacam a riqueza arqueológica do município

Como uma região quente e seca do semiárido piauiense pode guardar evidências de um período em que o clima da Terra era completamente diferente? Hoje, o cenário é marcado pelas altas temperaturas, pela vegetação típica da Caatinga e pelas paisagens características do Semiárido. No entanto, pesquisas realizadas em Brejo do Piauí mostram que as rochas da região podem contar uma história iniciada há centenas de milhões de anos, quando o território era coberto por gelo.


Um dos principais locais que comprovam esse passado remoto é o Pavimento Estriado de Calembre, considerado um importante geossítio do estado. No local, pesquisadores identificaram marcas deixadas pelo deslocamento de antigas geleiras sobre as rochas, evidências que ajudam a reconstruir a história climática do planeta.

  

Rochas presentes no município de Brejo do Piauí indicam que há milhões de anos a região era coberta por gelo
TV Antena 10

   

"Aqui no Pavimento Estriado de Calembre nós temos algumas evidências que provam que aqui em Brejo do Piauí nós tivemos um fenômeno glacial muito claro há milhões de anos, aproximadamente 358 a 360 milhões de anos. Esse é um período anterior aos dinossauros, anterior à presença humana aqui na Terra. Então, nesse sítio, nesse geossítio, nós temos aqui estrias que são marcações nessa rocha, uma rocha sedimentar muito dura, ela é cimentada com óxido de ferro. Então, nós temos estrias, nós temos sulcos e rochas que sofreram polimento, como se fossem lixadas ou alisadas pelo peso das geleiras que aqui deslizavam", explicou o professor e pesquisador Vinícius de Oliveira à TV Antena 10.

O estudo ajuda a compreender como ocorrem as transformações climáticas da Terra ao longo do tempo e reforça a importância científica da região. Segundo os pesquisadores, as evidências encontradas em Brejo do Piauí são consideradas raras e fazem do município um dos locais mais relevantes para a compreensão desse período geológico no estado.

"Nessa região aqui de Semiárido, aqui no estado do Piauí, nós temos esse sítio que prova que nós tivemos esse fenômeno glacial. Hoje, uma região tão quente, árida, de vegetação de caatinga no semiárido, mas há milhões de anos tudo era coberto por gelo, por imensas geleiras muito pesadas que deslizavam sobre essa estrutura rochosa, como dizem as pessoas mais comuns, populares aqui da região, um lajeiro. Mas, na verdade, é um pavimento que possui estrias, sulcos gerados pela abrasão e pelo deslizamento dessas geleiras aqui na região. Então, é algo muito singular e praticamente único para o estado do Piauí, dentro aqui do município de Brejo do Piauí", disse o professor e pesquisador.

  

Professor e pesquisador Vinícius de Oliveira
TV Antena 10

   

Além das formações geológicas que revelam mudanças climáticas ocorridas há milhões de anos, Brejo do Piauí também abriga importantes registros da presença humana pré-histórica. Um dos destaques é um bloco rochoso isolado localizado dentro da propriedade da família Aguiar, onde foi identificado um sítio arqueológico conhecido atualmente como Toca do Poço da Pedra.

Descoberto há cerca de 20 anos, o local reúne dezenas de pinturas rupestres que ajudam a compreender aspectos da vida dos povos originários que habitaram a região há milhares de anos.

"É um grande abrigo, uma toca que abrigava aqui os povos originários. E ela tem pinturas rupestres tanto na parte baixa, quanto também em todo o teto dessa toca. Nós temos pinturas que mostram o dia a dia dos povos, da cultura que eles realizavam, como também nós temos novamente as imagens de cervos e de animais típicos aqui da região da Caatinga. Então nós temos aqui uma quantidade imensa de pinturas rupestres por toda a área dessa toca. Ela servia também como um local para dormir, para se abrigar das chuvas e também dos animais que aqui existiam naquela época, aproximadamente aqui entre 20, 15 até 10 mil anos. É o que a gente pode estimar aqui", relatou à TV Antena 10.

  

Sítio arqueológico conhecido atualmente como Toca do Poço da Pedra
TV Antena 10

   

Além das pinturas, o sítio também apresenta gravuras rupestres esculpidas diretamente na rocha, ampliando a riqueza arqueológica encontrada no local. As representações revelam hábitos cotidianos, elementos da fauna regional e características culturais dos grupos que ocuparam a área no passado.

"As gravuras aqui, elas apresentam um padrão mais retilíneo, um padrão geométrico e também nesse sítio, nós encontramos além das pinturas rupestres, gravuras rupestres aqui também. Então nós temos esses dois estilos. Aqui os povos, eles também riscavam, de forma mais comum de falar, a rocha também mostrando o seu dia a dia, como também eles pintavam, eles relatavam nas rochas de arenito, aqui dessa toca, o seu dia a dia. Então nós temos um padrão aqui maior, as linhas são mais grossas, nós temos a figura de cervos muito mais bonitas, por assim dizer, mas bem visíveis e bem preservadas nesse sítio arqueológico tão pertinho da cidade aqui de Brejo", destacou Vinícius de Oliveira.

Com evidências de um antigo período glacial e registros da ocupação humana pré-histórica, Brejo do Piauí reúne patrimônios naturais e arqueológicos que ajudam a contar capítulos importantes da história da Terra e das populações que viveram na região.