O governo federal estuda liberar R$ 17 bilhões do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para ao menos 10 milhões de trabalhadores para ajudar esse público a quitar ou renegociar dívidas.
Especialistas ouvidos pelo R7 pontuam que há risco elevado de que os recursos sejam direcionados ao consumo, especialmente se não houver mecanismos de controle.
Para Ives Alexandre Nunes, especialista em finanças e contabilidade, “caso o dinheiro seja liberado diretamente ao trabalhador, sem vinculação ao pagamento de dívidas, a tendência de uso para consumo imediato é alta — sobretudo entre famílias de baixa renda com demandas reprimidas”.
“Sem educação financeira ou uma queda sustentável dos juros, o trabalhador pode quitar dívidas hoje e voltar a se endividar amanhã. Trata-se de uma medida paliativa”, avalia.
Além disso, na avaliação dele, o impacto tende a ser limitado e de caráter microeconômico. O especialista também alerta para o enfraquecimento do papel original do FGTS.
“O fundo foi concebido como uma espécie de proteção em casos de desemprego ou aposentadoria. Ao ampliar as possibilidades de saque, essa rede de proteção é reduzida, o que pode fragilizar o trabalhador em momentos de perda de renda”, destaca.
Impacto limitado
Segundo apurou a RECORD, o governo prepara duas medidas provisórias para disponibilizar os valores.
A primeira iniciativa prevê a liberação de aproximadamente R$ 7 bilhões que permanecem retidos nas contas de trabalhadores que aderiram ao saque-aniversário e foram demitidos sem justa causa entre janeiro de 2020 e dezembro de 2025.
A segunda ação para liberar entre R$ 9 bilhões e R$ 10 bilhões do FGTS para trabalhadores endividados quitarem débitos de cartão de crédito.
Na visão do professor de economia Renan Silva, o efeito da medida deve ser temporário.
“Em contextos semelhantes, isso funciona como um fôlego momentâneo para o varejo e serviços, mas não altera de forma significativa a trajetória do PIB. É uma injeção de liquidez de curto prazo, sem impacto estrutural na renda”, explica.
Ele acrescenta que o impacto sobre o endividamento tende a ser limitado. “Para quem tem dívidas pequenas, pode ajudar na renegociação. Mas o endividamento das famílias brasileiras está muito ligado a juros elevados no crédito, como cartão e consignado. Nesse sentido, o FGTS funciona mais como um ‘band-aid’ em um problema estrutural”, afirma.
Ano eleitoral
Ives avalia que, em ano eleitoral, a medida pode ser interpretada como estratégia de estímulo à economia com impacto político.
“Embora tenha mérito social ao ajudar endividados, trata-se de uma injeção rápida de liquidez, sem mudanças estruturais. Isso tende a melhorar a percepção de bem-estar no curto prazo”, afirma.
Renan concorda. “O governo pode argumentar que a iniciativa tem caráter social, mas o timing de liberar bilhões de reais meses antes de uma eleição é, historicamente, associado a medidas de estímulo à popularidade. Em geral, ações voltadas ao consumo imediato acabam sendo preferidas em contextos eleitorais”, conclui.