Polilaminina: o que falta para viabilizar o uso do medicamento

Após 27 anos de pesquisa na UFRJ, substância é esperança de reverter paralisia por lesão medular, mas ainda cumpre testes iniciais

A polilaminina, substância apontada como responsável por recuperar movimentos em pacientes com lesão medular, vem ganhando espaço no debate público e despertando esperanças na comunidade científica e em pessoas que convivem com essa condição.

O biofármaco é uma reconstrução da laminina, proteína encontrada naturalmente no organismo de diversos animais — inclusive na placenta humana — e atua na regeneração da medula espinhal em casos de lesão.

  
Polilaminina: o que falta para viabilizar o uso do medicamento
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Desenvolvida pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e coordenada pela bioquímica Tatiana Sampaio, a pesquisa está em andamento há 27 anos. Apesar do cenário favorável — com melhora no quadro de pelo menos três pacientes —, especialistas alertam que a aprovação do medicamento ainda depende de outros fatores.

Avaliação rigorosa

As especialistas Graziani Ferreira, doutora em enfermagem, e Lélia Leoi Romeiro, bióloga e professora universitária, explicam que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) exige mais do que casos isolados como evidência em estudos clínicos. São necessários, por exemplo, a aprovação em comitês de ética e o monitoramento constante dos riscos e do estado de saúde dos participantes.

No caso da polilaminina, a pesquisa já passou pela fase pré-clínica, na qual aspectos como toxicidade, mecanismo de ação, dose segura e efeitos colaterais são analisados em modelos experimentais. O objetivo é garantir a segurança necessária para a aplicação em humanos.

Atualmente na fase 1, a pesquisa segue para outras duas etapas. Entenda cada passo:

Finalizadas as fases clínicas, o próximo passo é apresentar à Anvisa um relatório completo, incluindo dados de segurança, eficácia, processo de fabricação, controle de qualidade e plano de monitoramento pós-comercialização.

É necessária também uma ATS (Avaliação de Tecnologias em Saúde) pelo Ministério da Saúde, para que o medicamento seja incorporado ao SUS (Sistema Único de Saúde).

Corte de verbas

Embora mantenha a patente brasileira, a polilaminina perdeu o registro internacional. Segundo Tatiana Sampaio, um corte de verbas imposto à UFRJ em 2016 impediu a universidade de arcar com as taxas de manutenção.

No Brasil, a patente é concedida pelo governo federal e garante a proteção jurídica da invenção por um prazo, geralmente, de 20 anos. Durante esse período, a equipe deve detalhar o andamento e a metodologia da pesquisa em relatórios periódicos.

Para que a proteção se estenda ao resto do globo, os pesquisadores também devem solicitar a inclusão no PCT (Tratado de Cooperação em Matéria de Patentes), um acordo internacional que “reserva” a invenção em vários países ao mesmo tempo.

“Este pedido não vira automaticamente uma patente mundial —isso não existe —, mas garante tempo e prioridade para depois escolher em quais países a proteção vai continuar”, esclarece Graziani Ferreira.

No entanto, quando os pagamentos cessam, o pedido de reserva de patente pode ser arquivado, abrindo espaço para que outras entidades explorem determinada pesquisa ou tecnologia de forma livre.

“É um paradoxo: a gente descobre a molécula em casa, mas tem que comprar de volta em dólar de uma multinacional que produziu lá fora”, lamenta Lélia Romeiro.

Segundo a bióloga e professora, a importância da patente não se restringe aos pesquisadores, mas se estende a todo o país. “A patente não é apenas um instrumento econômico. É também um motor para o desenvolvimento científico. Ela atrai investimentos privados e permite a transferência de tecnologias. Uma patente bem protegida pode transformar a ciência em tesouro nacional”, conclui.