Professora doutora denuncia caso de transfobia em programa de pós-graduação da UFPI em Teresina; entenda

Letícia afirmou que foi negado seu pedido de credenciamento docente. Ela aguardava há quase um ano uma resposta oficial

A professora doutora Letícia Carolina Nascimento usou as redes sociais para denunciar um caso de transfobia institucional pelo Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas (PPGPP/UFPI), em Teresina.

Letícia afirmou que foi negado seu pedido de credenciamento docente para atuar no programa. Ela aguardava há quase um ano uma resposta oficial.

 

Professora doutora denuncia caso de transfobia em programa de pós-graduação da UFPI em Teresina; entenda
Reprodução/Redes Sociais

   

"Após meses de silêncio, a resposta oficial chegou: decidiram negar meu pedido exigindo que eu me submeta a um edital futuro. A resposta veio com polidez e elogios à minha trajetória. Mas é preciso dar o nome correto ao que acontece nos corredores e atas: o que se operou aqui foi um quadro nítido de transfobia institucional. O colegiado age de forma totalmente incoerente com o próprio campo das políticas públicas. Recusam-se a tratar de forma diferente os/as diferentes, ignorando o princípio mais básico da equidade", escreveu.

A educadora afirmou que o próprio regimento do PPGPP (Resolução Nº 012/08, Art. 96, § 4º) permite que ela seja admitida de forma imediata para integrar o corpo docente do programa. Diante da situação, Letícia destacou que não irá concorrer ao próximo edital e disponibilizou um manifesto público em apoio ao seu credenciamento. Clique aqui e veja. 

"A justificativa institucional de que o edital geral seria a única via regulamentar para o ingresso é formalmente refutada pelo próprio Regimento do Programa. O Colegiado possui a prerrogativa de admitir, excepcionalmente, docentes de alta qualificação e notório saber por meio de análise de Currículo Lattes. A ferramenta normativa para promover a equidade e a reparação histórica existe e está disponível no agora. A recusa em aplicar os mecanismos de exceção previstos no regimento a uma intelectual travesti negra, única com essa titulação na instituição, evidencia como as barreiras burocráticas atuam no adiamento da inclusão real e na perpetuação do racismo e da transfobia estruturais no espaço acadêmico", escreveu.


Em nota, o PPGPP afirmou que a decisão não foi tomada pelo Colegiado do Programa, e que o processo foi apreciado em reunião realizada em 03 de julho de 2025, ocasião em que a matéria foi retirada de pauta em razão da discussão institucional acerca da necessidade de realização de um novo processo de recredenciamento e credenciamento docente para o quadriênio em curso.

"Tal encaminhamento decorreu da observância das normas de credenciamento e recredenciamento previstas no Regimento Interno do PPGPP, bem como dos critérios de avaliação estabelecidos pela Área 32 da CAPES para o quadriênio 2025-2028, que incluem, entre seus parâmetros, a existência e a publicização de critérios para inserção/credenciamento e descredenciamento/recredenciamento de docentes permanentes, visitantes e colaboradores. [...] não teve como fundamento qualquer forma de discriminação relacionada à identidade de gênero, orientação sexual, raça, etnia ou pertencimento social", afirmou.

O programa ainda destacou a trajetória profissional da professora Letícia. "O Colegiado do PPGPP reconhece a relevância acadêmica e intelectual da trajetória da Profa. Dra. Letícia Carolina Nascimento e manifesta respeito às contribuições que a docente tem oferecido aos debates sobre gênero, raça, diversidade e direitos humanos no âmbito da universidade e da sociedade brasileira. Considera, ainda, que sua trajetória acadêmica e sua produção intelectual a credenciam como potencial candidata ao futuro processo de credenciamento docente, que será conduzido por meio de edital público, observados os critérios acadêmicos e institucionais estabelecidos, bem como as ações afirmativas que vierem a compor o certame", disse.