A sessão da CPMI do INSS desta quinta-feira (26) virou palco de empurra-empurra, gritos e acusações entre parlamentares logo após a aprovação da quebra de sigilo de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Governistas questionaram o rito da votação; oposicionistas comemoraram o avanço das investigações. O clima esquentou, a sessão quase saiu do controle e o episódio mostrou o tamanho da tensão política que envolve o caso.
Mas é justamente aí que está o ponto central: quando há suspeita de desvio bilionário que atingiu aposentados e pensionistas, não pode haver blindagem, nem guerra de torcida organizada. É preciso passar tudo a limpo. Se há inocência, que fique comprovada. Se há culpa, que haja punição. O próprio presidente Lula foi direto ao tratar do assunto com o filho: “Quando saiu o nome do meu filho, chamei ele e disse: só você sabe a verdade. Se você tiver alguma coisa, vai pagar o preço, mas se não tiver, se defenda”. Diante dessa declaração, não faz sentido político nem moral trabalhar para impedir investigação.
A CPMI aprovou a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático de Lulinha depois que o nome dele apareceu citado em mensagens e diálogos investigados pela Polícia Federal no âmbito da Operação Sem Desconto. A PF apura um esquema que teria desviado recursos de aposentadorias e pensões do INSS por meio de entidades associativas e operadores que aplicavam descontos indevidos nos benefícios.
Segundo os relatórios, o nome de Lulinha surgiu em conversas entre investigados, inclusive com menção a “o filho do rapaz”, em meio a repasses financeiros ligados a pessoas próximas ao chamado “Careca do INSS”, apontado como um dos operadores do esquema. Não há, até o momento, prova direta de participação do filho do presidente nas fraudes contra aposentados. A quebra de sigilo é uma medida de investigação, não uma condenação.
A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, já havia autorizado anteriormente o acesso aos dados no inquérito que tramita sob sigilo. A CPMI agora reforça esse movimento dentro do Congresso, ampliando a pressão política sobre o caso.
O que não pode ser esquecido é que o escândalo não nasce em um único governo. As investigações apontam que o esquema atravessou gestões, começando ainda no governo Bolsonaro e avançando para o governo Lula. Ou seja, não é uma disputa entre direita e esquerda. É uma ferida aberta na Previdência, que atingiu quem mais depende do benefício para sobreviver.
Quando parlamentares transformam a comissão em campo de batalha ideológica, o foco sai do essencial: milhões de aposentados tiveram descontos que não autorizaram. Gente humilde, muitas vezes do interior do país, que viu parte do benefício sumir mês após mês.
Se o próprio presidente afirmou que, havendo culpa, “vai pagar o preço”, a coerência exige que a investigação avance sem obstrução. A base do governo não deveria trabalhar contra convocações ou quebras de sigilo. Transparência fortalece, não enfraquece.
No fim das contas, a CPMI tem uma missão clara: identificar responsáveis, recuperar recursos desviados e propor mudanças para impedir que o INSS volte a ser alvo de quadrilhas. Blindar nomes, sejam eles quais forem, só alimenta desconfiança. Investigar com rigor, respeitando o devido processo legal, é a única forma de proteger tanto a honra de inocentes quanto o dinheiro dos aposentados.