A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de produtividade, pesquisa e comunicação. Nos conflitos armados, ela já participa de operações militares que podem decidir quem será atacado, quais estruturas serão destruídas e como as forças de combate executarão suas ações. O avanço é particularmente preocupante porque ocorre em um ambiente no qual a velocidade das máquinas pode superar a capacidade humana de avaliar consequências. Um levantamento da Human Rights Watch, publicado em junho de 2026, aponta que forças militares de diferentes países estão incorporando sistemas de IA à identificação de alvos, ao planejamento de operações e à avaliação de possíveis danos a civis. A tecnologia, portanto, não representa apenas uma possibilidade futura: já integra a realidade dos campos de batalha.
Em Gaza, sistemas automatizados e ferramentas de inteligência artificial também foram associados à identificação e à classificação de possíveis alvos militares pelas forças israelenses. Investigações e reportagens sobre ferramentas como Lavender levantaram questionamentos sobre a escala de recomendações de alvos e o grau de participação humana nas decisões de ataque. No conflito envolvendo Irã, em 2026, a Human Rights Watch relatou o emprego de sistemas de IA para apoiar a identificação de alvos e a escolha de armamentos durante operações militares. Um estudo da Carnegie Endowment apontou que o sistema Maven, desenvolvido com participação da empresa Palantir, teve papel relevante no processamento de informações e no apoio à seleção de alvos. É importante distinguir, porém, o uso de IA para fornecer recomendações e acelerar decisões da situação em que uma arma escolhe e ataca um alvo sem intervenção humana: são níveis diferentes de autonomia, embora ambos levantem questões sobre responsabilidade e proteção de civis.
O perigo não está restrito ao campo militar. Na próxima década, sistemas mais autônomos poderão ser utilizados em enxames de drones, operações de vigilância, ataques cibernéticos e campanhas de desinformação. A combinação de máquinas capazes de identificar padrões, tomar decisões em segundos e operar conectadas a diferentes armamentos pode reduzir o tempo disponível para que um comandante avalie uma situação ou interrompa uma operação. Também existe o risco de disseminação dessa tecnologia para governos autoritários, grupos criminosos e organizações armadas, especialmente porque componentes de drones, sensores e softwares estão se tornando mais acessíveis. O Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI) já aponta a expansão de veículos aéreos não tripulados armados e de plataformas com recursos autônomos e integração de IA como uma das mudanças importantes na dinâmica dos conflitos contemporâneos.
A preocupação de especialistas não se limita à possibilidade de uma máquina desenvolver consciência ou decidir, por vontade própria, dominar a humanidade. Esse cenário permanece especulativo. O risco mais concreto é a criação de sistemas com autonomia, acesso a recursos e capacidade de executar tarefas complexas sem que seus operadores compreendam inteiramente como cada decisão foi produzida. Um erro de identificação, uma informação incorreta ou uma interpretação equivocada de dados pode provocar mortes, atingir estruturas civis e até contribuir para a escalada de um conflito. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) alerta que armas autônomas capazes de selecionar e atacar alvos sem nova intervenção humana levantam graves questões humanitárias, jurídicas e éticas. A entidade defende regras internacionais que proíbam determinados sistemas imprevisíveis ou projetados para atacar diretamente pessoas e estabeleçam limites para os demais.
O que pode acontecer até 2036 dependerá, em grande medida, das decisões tomadas agora. É possível que a IA se torne parte central da estratégia militar de grandes potências, com redes integradas de vigilância, drones e armamentos capazes de executar operações coordenadas em poucos minutos. Também poderá ampliar a capacidade de defesa, detectar ameaças e reduzir determinados riscos para soldados e civis, desde que haja controle e avaliação adequados. O problema é que a velocidade do desenvolvimento tecnológico está pressionando governos e organismos internacionais a estabelecer limites antes que práticas perigosas se tornem comuns. O CICV defende a negociação de regras juridicamente vinculantes para armas autônomas, enquanto organizações de direitos humanos cobram supervisão humana efetiva nas decisões sobre o uso da força. A questão central, portanto, não é apenas saber até onde a inteligência artificial será capaz de chegar, mas quem terá autoridade para utilizá-la — e se ainda haverá controle humano real quando uma máquina receber a capacidade de decidir sobre a vida e a morte.