O prefeito de Wall Ferraz, Luiz Guilherme Maia de Sousa, o Guilherme Maia (PSD), passou a enfrentar uma das mais graves crises administrativas e judiciais desde o início de sua gestão após o Ministério Público do Piauí ajuizar ação civil pública pedindo seu afastamento cautelar do cargo por suspeita de utilização da estrutura da prefeitura para quitar uma dívida pessoal de R$ 200 mil.
Segundo a ação da 1ª Promotoria de Justiça de Picos, a dívida teria sido contraída ainda antes do mandato e, posteriormente, recursos públicos municipais teriam sido movimentados por meio de empresas contratadas pela prefeitura para beneficiar diretamente o credor. O MP sustenta que a investigação reúne ata notarial, áudios, mensagens, transferências bancárias, relatórios do COAF e perícia da Polícia Civil apontando possível triangulação financeira envolvendo contratos públicos.
Em um dos áudios anexados ao processo, o prefeito afirma ao credor que o “saldo” estaria reservado e menciona formas de “faturar” o pagamento. Em outra gravação, há orientação para saques em espécie “pra não ter movimentação”. A promotoria também afirma que laudo pericial descartou a alegação de falsidade da assinatura da nota promissória utilizada como prova da dívida.
A situação descrita revela fortes indícios de obstrução à Justiça e de tentativa de apagamento de vestígios do esquema, especialmente pela demolição, com máquinas da própria prefeitura, da sede da Origimed Distribuidora Ltda., empresa ligada ao pai do prefeito e ao centro das investigações, em momento posterior ao início da apuração, o que é confirmado por registros fotográficos georreferenciados. No campo financeiro, as transferências realizadas pelos empresários e pela proprietária da Y P Barroso, somadas às versões consideradas contraditórias e sem qualquer comprovação documental — como a alegação de empréstimo sem lembrança de data, o pagamento motivado pela “agonia” do credor e a transferência feita a pedido do marido sem recordação do motivo —, compõem um quadro de operações sem lógica econômica plausível, que, sob análise crítica, sugere o uso desses atores como interpostos para ocultar a real natureza dos pagamentos e proteger os agentes públicos envolvidos.
O Ministério Público pede:
- afastamento cautelar do prefeito;
- indisponibilidade de bens;
- perda da função pública;
- suspensão dos direitos políticos;
- ressarcimento ao erário.
Mas o caso é apenas mais um dentro de uma sequência de auditorias, decisões e denúncias que vêm sendo reveladas pela coluna envolvendo a administração municipal.
CGU aponta mais de R$ 2,1 milhões em contratos da educação sob suspeita
Auditoria da Controladoria-Geral da União identificou:
- possíveis superfaturamentos;
- pagamentos sem comprovação;
- serviços não executados;
- materiais desaparecidos;
- fragilidade de fiscalização.
Entre os valores apontados:
- R$ 127 mil em possível superfaturamento na Escola Paulo Ferraz;
- R$ 150 mil na construção de creche;
- R$ 215 mil em reformas escolares parcialmente executadas;
- R$ 768 mil em materiais pagos e não encontrados;
- R$ 244 mil em serviços gráficos sem comprovação;
- R$ 100 mil em equipamentos desaparecidos;
- R$ 243 mil em materiais sem comprovação de uso.
A CGU ainda apontou mais de R$ 3 milhões em gratificações e pagamentos educacionais sem critérios objetivos claros ou respaldo documental adequado.
Reforma de UBS entrou na mira por suspeita de superfaturamento
Outra auditoria da CGU apontou:
- superfaturamento superior a R$ 162 mil;
- pagamentos por serviços não executados;
- falhas graves na fiscalização da reforma de uma Unidade Básica de Saúde.
Segundo os auditores, a prefeitura declarou a obra como concluída, mas inspeção física encontrou serviços ausentes ou executados parcialmente.
TCE suspendeu contrato após suspeita de pagamentos sem obra executada
O Tribunal de Contas do Estado do Piauí determinou suspensão de contrato ligado à Barragem Jenipapeiro após identificar:
- ausência de medições;
- inexistência de registros fotográficos;
- falta de diários de obra;
- pagamentos sem comprovação material dos serviços.
O tribunal também questionou a capacidade operacional da empresa contratada, que possuía apenas quatro funcionários registrados e estrutura considerada incompatível com o contrato.
Ministério Público aponta suposto esquema com empresas de fachada e mais de R$ 1,5 milhão sob suspeita
Segundo a investigação:
- a GG Construtora teria recebido mais de R$ 1,1 milhão;
- a Origimed teria movimentado mais de R$ 206 mil;
- empresas não possuíam estrutura operacional compatível;
- haveria possível triangulação financeira envolvendo familiares e pessoas próximas à gestão.
Embora os processos ainda estejam em fase de investigação ou tramitação judicial, chama atenção o volume de procedimentos simultaneamente abertos por órgãos como: Ministério Público; CGU; TCE-PI; COAF e Polícia Civil.
Em praticamente todos os relatórios, os órgãos de controle citam: fragilidade documental; ausência de comprovação dos serviços; falhas de fiscalização; empresas sem capacidade operacional e movimentações financeiras consideradas atípicas.
Para uma cidade de pequeno porte, com pouco mais de 4 mil habitantes, o avanço simultâneo das investigações elevou significativamente a pressão política e institucional sobre a gestão municipal e colocou Wall Ferraz entre os municípios mais monitorados atualmente pelos órgãos de controle no Piauí.