Isenção de visto para chineses pode impulsionar turismo no Brasil, mas exige atenção

Medida ainda sem regras detalhadas reduz barreiras à mobilidade, mas coloca em foco desafios de fiscalização e gestão migratória

O governo federal anunciou recentemente a concessão de isenção de vistos de curta duração para cidadãos chineses, medida tomada em reciprocidade à política chinesa que já permitia a entrada de brasileiros sem visto desde junho de 2025 e que foi estendida até o fim de 2026.

Embora o formato e as regras da isenção ainda não tenham sido detalhados pelo governo brasileiro, a medida pode ter efeito positivo sobre turismo e viagens de negócios, mas exige atenção a mecanismos de controle migratório e fiscalização.

 
Isenção de visto para chineses pode impulsionar turismo no Brasil, mas exige atenção
Ricardo Stuckert/PR - Arquivo
 

A avaliação é do professor João Alfredo Lopes Nyegray, doutor em internacionalização e professor de Geopolítica e Negócios Internacionais da PUC-PR. Segundo ele, a isenção tende a gerar um efeito positivo no fluxo de viagens ao Brasil, mas sem provocar mudanças imediatas ou automáticas.

“Vistos funcionam como custos de transação. Quando são reduzidos, a circulação aumenta, especialmente em viagens de negócios, missões empresariais e deslocamentos de curta duração, que são mais sensíveis a burocracias”, explica.

De acordo com o especialista, o impacto mais rápido deve ser percebido no turismo corporativo, como feiras, visitas técnicas e negociações presenciais.

Já no turismo de lazer, especialmente considerando a distância entre Brasil e China, o crescimento tende a ser gradual e depende de outros fatores, como conectividade aérea, estratégias de promoção internacional e infraestrutura turística adequada ao público chinês. “A isenção não cria sozinha uma explosão de fluxo, mas remove um gargalo importante”, ressalta.

No campo econômico, Nyegray avalia que a medida funciona mais como um facilitador estratégico do que como um gatilho direto para novos investimentos. “Relações econômicas densas exigem presença física. Ao reduzir barreiras à mobilidade, o Brasil melhora seu ambiente de negócios para parceiros chineses”, argumenta.

Os efeitos mais imediatos, segundo ele, devem aparecer em comércio, serviços ligados a negócios internacionais, logística, eventos empresariais e educação.

Apesar dos possíveis ganhos, o professor alerta para riscos associados ao controle migratório, especialmente em um cenário de aumento do fluxo de visitantes. Entre os principais pontos de atenção, estão o uso indevido do status de visitante, permanências além do prazo autorizado e a entrada de mercadorias com finalidade comercial sob a alegação de uso pessoal — o que pode pressionar a fiscalização aduaneira e distorcer a concorrência interna.

Para que a isenção produza resultados positivos líquidos, Nyegray defende que a política seja acompanhada de regras claras e mecanismos complementares de governança migratória, como triagem digital prévia, integração de dados com companhias aéreas e cooperação bilateral em matéria consular.

“Facilitar a mobilidade exige um Estado capaz de administrar essa abertura de forma inteligente”, resume.

Quais viagens passam a ter isenção de visto

A isenção anunciada não se aplica a todas as modalidades de entrada. Segundo o governo brasileiro, ela será válida para viagens de até 30 dias, exclusivamente nas seguintes categorias:

Vistos para trabalho, residência, estudo de longa duração ou atividades remuneradas continuam sujeitos à autorização consular, conforme a legislação migratória brasileira.