Na última semana, o governo brasileiro anunciou a ampliação dos acordos de cooperação com a Rússia, em essencial, nas áreas de tecnologia, investimentos, comércio bilateral e indústria. Apesar da tensão russa com os Estados Unidos, especialistas entendem que a parceria é estratégica e busca diversificar o comércio. O ponto crítico não é com quem o Brasil se relaciona, mas como as relações são conduzidas.
O economista e consultor em gestão de risco Rodrigo Provazzi explica que, historicamente, o Brasil mantém relações comerciais com diferentes polos de poder. Assim, uma ampliação cooperativa com a Rússia não seria novidade.
“Enquanto a cooperação com a Rússia estiver ancorada em interesses econômicos objetivos, transparência institucional e ausência de antagonismo político explícito, ela tende a ser compreendida como diversificação estratégica, não como provocação”, comenta.
Para o especialista em comércio exterior Jackson Campos, a ampliação da parceria com a Rússia pode gerar um desconforto com Washington caso haja uma percepção de alinhamento estratégico em temas sensíveis. Entretanto, ele explica que as relações comerciais não são automaticamente interpretadas como posicionamento ideológico.
“O impacto dependerá do contexto diplomático e da intensidade da aproximação. Se o Brasil mantiver postura pragmática, baseada em interesses econômicos e autonomia estratégica, a relação tende a ser vista como parte da política externa tradicional brasileira de equilíbrio entre blocos. O risco surge apenas se o movimento for interpretado como desafio direto à política externa norte-americana”, comentou.
Os especialistas entendem que não diversificar parceiros seria mais arriscado em um cenário global cada vez menos previsível.
“O desafio do Brasil é manter equilíbrio diplomático, previsibilidade regulatória e coerência estratégica, algo que o país historicamente sabe fazer quando adota uma postura técnica e não ideológica”, conclui Provazzi.
Brasil e Rússia
Segundo o governo federal, a parceria com a Rússia pode contribuir para enfrentar gargalos estruturais da economia brasileira, especialmente em setores estratégicos para a produção nacional.
A ideia é de que tenha mais produção e valor agregado, em áreas como fertilizantes, agroindústria, máquinas e equipamentos, energia limpa, logística e digitalização industrial.
Além desses acordos, o Brasil e a Rússia assinaram uma declaração conjunta em defesa do uso pacífico da energia nuclear.
Para os especialistas, a parceria russa é relevante, não dependente, especialmente no fornecimento de fertilizantes, energia, defesa, tecnologia nuclear para fins pacíficos e cooperação científica. Esses setores são considerados críticos, devido aos gargalos estruturais do Brasil.
A aproximação também fortalece a posição brasileira dentro do BRICS, ampliando o espaço de articulação fora dos eixos tradicionais.
“Essa aproximação fortalece a posição brasileira dentro do BRICS, amplia margem de negociação internacional e cria alternativas logísticas e financeiras. O principal ganho é geoeconômico, pois aumenta o poder de barganha do Brasil diante de pressões externas”, completou Campos.