Foram sete dias de uma narrativa comprimida no tempo: do amanhecer de sábado (22), quando agentes da Polícia Federal bateram à porta da casa de Jair Bolsonaro para prendê-lo preventivamente, ao desfecho de terça-feira (25), quando o STF (Supremo Tribunal Federal) deu trânsito em julgado ao processo da trama golpista.
Assim, Bolsonaro se tornou o primeiro ex-presidente do Brasil preso por tentativa de golpe. Apontado como líder de uma tentativa de ruptura institucional, o capitão reformado do Exército recebeu 27 anos e 3 meses de prisão em regime fechado: 24 anos e 9 meses de reclusão e 2 anos e 6 meses de detenção.
Fernando Frazão/Agência Brasil - Arquivo
A PGR (Procuradoria-Geral da República) o enquadrou como comandante de uma organização criminosa destinada a subverter a ordem constitucional.
Com o martelo batido, relembre a sequência de acontecimentos que colocaram a prisão na biografia de Bolsonaro.
O prenúncio silencioso
O dia 21 de novembro, uma sexta-feira, tornou-se o prenúncio silencioso. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) convocou uma vigília nas redes sociais, a ser feita em frente ao condomínio da casa do pai. O motivo: oração pela saúde de Bolsonaro.
- 21/11: A PF alerta o STF para risco de fuga e solicita a prisão preventiva.
- 21/11: Moraes consulta a PGR sobre o pedido.
De madrugada, o roteiro acelera
- 22/11: A tornozeleira eletrônica dispara; Moraes é comunicado.
- 22/11: Agentes ligam para Bolsonaro.
- 22/11: PGR não se opõe; Moraes autoriza a prisão preventiva.
- 22/11 – 6h00: Viaturas da PF chegam à residência.
- 22/11 – 6h35: Bolsonaro é levado à Superintendência da PF em Brasília.
O episódio da ‘paranoia’
Bolsonaro estava em prisão domiciliar desde 4 de agosto por descumprimento de medidas cautelares. Após ser levado para a PF, ele participou da audiência de custódia no domingo, 23 de novembro.
Ao falar com a Justiça, ele explicou que tentou abrir a tornozeleira com um ferro de solda, convencido de que havia uma escuta secreta. Disse que teve um momento de “paranoia”.
O boletim médico divulgado no mesmo dia descreveu confusão mental e alucinações possivelmente associadas ao uso combinado de pregabalina, clorpromazina e gabapentina.
O martelo final
Na terça-feira (25), o processo envolvendo o ex-presidente transitou em julgado.
Moraes rejeitou os últimos recursos das defesas por considerá-los protelatórios, ou seja, só serviriam para prorrogar o início do cumprimento da pena e não tentar modificá-la.
A decisão foi referendada por unanimidade pela Primeira Turma do STF, com os votos de Moraes, Flávio Dino, Cármen Lúcia e Cristiano Zanin.
A partir deste momento, o ex-presidente não era mais um réu apelando, mas um condenado pronto para cumprir pena. Ficou definido que Bolsonaro não deveria voltar para casa, mas permanecer preso na PF.
Lá, Bolsonaro está em uma sala de Estado-Maior, um espaço reservado a autoridades com mesa, cadeira, cama de solteiro, ar-condicionado e banheiro privativo.
Visitas da família
No domingo da audiência custódia, Bolsonaro foi visitado pela mulher, Michelle Bolsonaro. Ela apareceu pontualmente às 15h e saiu às 17h.
Nem ela nem os filhos estavam com o ex-presidente no momento da prisão. Só a filha mais nova, menor de idade. Durante a semana que se seguiu à detenção, Flávio, Carlos, Jair Renan e Michelle voltaram à PF.
Com autorização judicial, na última terça-feira, Flávio chegou às 9h18. Carlos, às 9h20. O senador entregou ao pai o livro “Metanoia - A Chave Está Em Sua Mente”, do pastor JB Carvalho.
Na quinta-feira (27), Jair Renan visitou o pai pela primeira vez. O filho afirmou que a crise de soluções do pai havia piorado e médicos tinham sido chamados. Michelle também foi à Superintendência da PF naquele dia.
Nova tentativa da defesa de reverter a condenação
Nessa sexta-feira (28), a defesa de Bolsonaro apresentou outro pedido para tentar reverter a condenação.
No recurso, os advogados pedem que prevaleça o voto vencido do ministro Luiz Fux, o único a votar pela absolvição de Bolsonaro durante o julgamento do caso na Primeira Turma do STF.
Fux considerou nula toda a ação penal desde o recebimento da denúncia e votou para livrar Bolsonaro de todas as acusações.
“Diante da manifesta contrariedade com o direito e com as provas dos autos, a injusta condenação imposta a Jair Messias Bolsonaro, já reconhecida pelo eminente ministro Luiz Fux, deve ser submetida ao crivo do Plenário do Supremo Tribunal Federal para que, ao final, seja reconhecida e declarada a sua inocência”, pede a defesa.