📲 Siga o A10+ no Instagram, Facebook e Twitter.
A democracia tem custos — e eles não são pequenos. Mas há um ponto em que o custo começa a soar como excesso. A solicitação da Polícia Federal para ampliar em cerca de R$ 198 milhões o orçamento de 2026, com o objetivo de garantir a segurança dos candidatos à Presidência da República, escancara uma contradição difícil de justificar diante do volume já bilionário de dinheiro público destinado aos partidos políticos e às campanhas eleitorais.
Segundo a própria PF, o pedido foi motivado por um cenário de polarização política intensa, instabilidade internacional e limitações orçamentárias. O plano inclui veículos blindados, sistemas antidrones e ampliação do efetivo, com equipes de até 25 a 30 agentes federais por candidato, dentro da chamada Operação Policial de Proteção aos Presidenciáveis. Tudo isso é legal, constitucional e institucionalmente previsto. O problema não é a legalidade — é a razoabilidade.

Em 2025, apenas o Fundo Partidário distribuiu R$ 1,12 bilhão para 19 legendas que superaram a cláusula de barreira. Somadas as multas eleitorais, o valor ultrapassou R$ 1,22 bilhão em um único ano. Para 2026, o Congresso aprovou um Fundo Eleitoral de R$ 4,9 bilhões, exclusivo para campanhas. No ciclo completo, os repasses públicos aos partidos chegam a R$ 6 bilhões, sem contar estruturas indiretas, assessorias, isenções e tempo de rádio e TV.
Os maiores partidos receberam cifras que, sozinhas, superam o orçamento anual de muitos municípios brasileiros. O PL, por exemplo, ficou com R$ 192 milhões do Fundo Partidário em 2025; o PT, R$ 140 milhões. Ainda assim, a arrecadação privada declarada foi irrisória: cerca de R$ 4,2 milhões, o que reforça a dependência quase total do sistema político em relação ao Tesouro Nacional.
Diante desse cenário, a pergunta se impõe: por que a conta da segurança pessoal dos candidatos também deve recair integralmente sobre o Estado?
É inegável que cabe à União, por meio da Polícia Federal, preservar a ordem democrática e impedir que atentados interfiram no processo eleitoral. Esse argumento é sólido e tem base constitucional. Mas há uma diferença clara entre garantir a integridade do processo democrático e financiar um aparato de proteção pessoal de alto custo para agentes políticos que já dispõem de estruturas partidárias milionárias.
Os partidos mantêm sedes, funcionários, comunicação, logística e campanhas com dinheiro público durante todo o ano. Em períodos eleitorais, recebem ainda bilhões extras para propaganda, deslocamentos e eventos. Mesmo assim, nenhum centavo desses fundos é destinado à segurança dos próprios candidatos — uma despesa automaticamente transferida para a Polícia Federal e, portanto, para o contribuinte.
Na prática, cria-se um modelo em que o risco político é socializado, enquanto os benefícios do poder permanecem concentrados.
Outro ponto sensível é a naturalização da escalada de custos. A cada ciclo eleitoral mais polarizado, o orçamento cresce; a cada nova tecnologia, surgem novas despesas; a cada ameaça potencial, justifica-se mais estrutura. Não há, porém, um debate público consistente sobre limites, contrapartidas ou coparticipação financeira dos partidos.
Em um país com déficits crônicos em saúde, educação e segurança pública básica — aquela que protege o cidadão comum —, soa desproporcional mobilizar centenas de agentes federais, blindados e equipamentos de ponta para garantir campanhas políticas que já são financiadas, em larga escala, com recursos públicos.
O ponto central não é negar proteção aos candidatos, mas questionar o modelo atual. Uma democracia que depende de bilhões para funcionar, e de centenas de milhões adicionais para proteger seus protagonistas, talvez precise repensar suas prioridades. Quando o sistema político se blinda — literal e financeiramente — com recursos públicos, a distância entre representantes e representados aumenta.
Garantir eleições livres é essencial. Mas também é essencial que o custo dessa garantia não se transforme em mais um símbolo de um sistema político oneroso, autossuficiente e cada vez menos conectado à realidade fiscal do país.
No fim das contas, a democracia não pode se tornar um privilégio caro demais para quem a sustenta: o contribuinte.
Fonte: Portal A10+