*Por Ana Júlia, estagiária sob supervisão de Marcelo Gomes
O A10Cast deste sábado (24) recebe a delegada da Polícia Civil Amanda Bezerra. Durante a entrevista, ela fala sobre sua trajetória profissional, a rotina policial, o crescimento da presença feminina na profissão e as experiências que marcaram sua carreira.
Amanda relembra sua infância no município de Monsenhor Hipólito, no Sul do Piauí. Segundo ela, a paixão pela leitura surgiu por influência da mãe, que era professora. Durante a vida escolar, chegou a considerar a Geologia como profissão, mas, no Ensino Médio, descobriu o interesse pelo curso de Direito.
A delegada conta que não conseguiu aprovação em Direito logo após concluir o terceiro ano. Por isso, ingressou no curso de Letras-Português da Universidade Federal do Piauí (UFPI), sua primeira graduação. Atualmente, também atua como professora em cursos preparatórios para concursos públicos.
“Hoje eu leciono, mas para concurso público. E aí, no ano seguinte, continuei estudando e consegui a aprovação para Direito na Universidade Estadual do Piauí, que foi meu xodó durante toda a graduação”, relata Amanda.
Ela também relembra que foi aprovada no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) antes de concluir a graduação em Direito. Segundo a delegada, o apoio dos pais foi fundamental para sua trajetória na área policial. A mãe, inclusive, foi responsável por inscrevê-la no concurso da Polícia Civil sem consultá-la previamente.
Na formatura, Amanda teve uma conversa marcante com o pai, que desejava que a filha seguisse outra profissão.
“Quando eu cheguei na minha formatura, que eu fui dançar a valsa da formatura com o meu pai, ele virou para mim e disse: ‘É, minha filha, eu estou muito feliz, mas estou muito triste também’. Eu disse: ‘Por quê, pai?’. Ele disse: ‘Porque eu queria uma filha doutora, e agora eu acho que a minha filha vai ser policial. Eu estou preocupada com isso’. Aí eu disse: ‘Olha, pai, infelizmente eu vou ter que lhe dar esse desgosto, mas, assim, eu vou optar pela polícia’”, conta.
Trajetória construída na Polícia Civil
Amanda Bezerra foi aprovada para o cargo de delegada da Polícia Civil em 2018. Ela afirma que a preparação para o concurso exigiu muito esforço, mas destaca que sempre teve paixão pela profissão e que não escolheria outra carreira.
“Eu vivo a polícia, não no sentido pesaroso de dizer: ‘Ah, o meu trabalho’. Não, é porque eu realmente gosto do que eu faço. Sou professora de cursinho, eu sempre digo para eles, assim, se eu tivesse que escolher várias vezes, um milhão de vezes que fosse, dentro da minha vida, eu não escolheria algo diferente da polícia, porque é algo que eu amo de verdade”, afirma.
A delegada explica que um dos aspectos que mais a atraem na profissão é a ausência de uma rotina previsível, já que novas demandas surgem diariamente.
Ela também destaca a importância do acolhimento às pessoas que procuram uma delegacia, muitas vezes em situações difíceis.
“E ninguém procura delegacia porque está feliz e satisfeito, tá? Então, o mínimo que você pode dar e devolver àquelas pessoas é a dignidade. Por isso que eu falo que a delegacia é a nossa justiça primeira”, declara.
Caso de violência doméstica marcou a carreira
Durante a entrevista ao A10Cast, Amanda relembra um caso de violência doméstica que marcou sua trajetória na Polícia Civil. Segundo ela, a ocorrência começou após uma ligação de uma mulher que vivia em situação de cárcere privado com os filhos, em uma residência no interior de Picos.
A delegada conta que, ao chegar ao local com outros policiais, a equipe encontrou a casa completamente fechada e com obstáculos no muro. Diante da situação, ela decidiu se aproximar da residência fingindo ser uma funcionária do governo responsável por realizar um recadastramento de benefícios sociais, enquanto os colegas aguardavam no carro.
“Quando a gente chegou lá, a casa estava completamente fechada, tinha uns grampos imensos no muro. E aí a gente olhou um colega para o outro e disse: ‘Agora é o seguinte, eu vou me desarmar, vou de uma prancheta, me fingindo de funcionária do governo, que vou fazer um recadastramento de Bolsa Família ou de algum benefício. Vocês ficam no carro. Se eu gritar, entrem’”, relata.
Amanda afirma que foi recebida pela vítima e pelos filhos. Segundo o relato da delegada, o suspeito estava nos fundos da residência, limpando uma espingarda que utilizava para fazer rondas ao redor da casa.
A experiência permaneceu na memória da policial e é considerada por ela uma das mais emblemáticas de sua carreira.
“Acredito eu que, pelo decurso do tempo, ele já deve ter saído, mas esse, sem dúvida, foi um dos casos mais emblemáticos da minha vida”, afirma.