As investigações em torno do Banco Master e de seu controlador, o empresário Daniel Vorcaro, atravessam um dos momentos mais sensíveis da história recente do sistema financeiro e político brasileiro. A Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, já entrou em sua segunda fase, com mandados de busca e apreensão em vários estados, blocos de bens e suspeitas que extrapolam o universo bancário para tocar diretamente as engrenagens da política nacional.
A primeira fase da operação, deflagrada em 2025, culminou na prisão de Vorcaro no Aeroporto de Guarulhos, quando tentava embarcar para o exterior em seu jato particular em meio às investigações sobre emissão de títulos de crédito falsos e gestão fraudulenta de uma instituição financeira — uma conduta que teria impulsionado a liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central, medida que agora chegou também à Reag Investimentos, uma grande gestora de fundos brasileira, que tem como Fundador e ex-presidente João Carlos Mansur.
A nova fase, autorizada pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), amplia o escopo para crimes como organização criminosa, manipulação de mercado e lavagem de dinheiro, com 42 mandados cumpridos em São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, além de sequestro e bloqueio de bens e valores que ultrapassam R$ 5,7 bilhões. Entre os alvos, além de Vorcaro, estão empresários ligados à sua rede, incluindo o cunhado Fabiano Campos Zettel e figuras como Nelson Tanure e João Carlos Mansur. Todos, teriam relações estreitas com grupos políticos, direta ou indiretamente.
STF, provas sob custódia e controvérsias na investigação
O papel do STF tem sido central — e também controverso. O ministro Dias Toffoli autorizou que todo o material apreendido na operação fosse encaminhado à Procuradoria-Geral da República (PGR) para perícia, com acesso de peritos da PF para extração de dados digitais. Em decisão anterior, Toffoli havia mantido o material sob custódia da Corte, o que levou a críticas sobre possíveis dificuldades de acesso para a investigação.
A escolha de manter as provas no STF, com prazo de cumprimento de ordens de busca restrito e lacre reforçado, já alimenta debates sobre a efetividade do processo investigatório e a possibilidade de vícios processuais que dificultem o uso do material coletado. Esses fatos, por si só, afastam a investigação das luzes transparentes que a sociedade espera para casos com tamanhas implicações.
Silêncio de parlamentares e conexões incômodas
Um dos aspectos mais perturbadores do episódio é o silêncio ensurdecedor de grande parte do Congresso, incluindo deputados e senadores que tradicionalmente se posicionam sobre temas de combate à corrupção. Enquanto o senador Márcio Bittar (PL-AC) chegou a criticar a conduta de ministros do STF em relação ao caso, questionando conflitos de interesse e o envio de informações da CPI do INSS ao Senado sem amplo acesso, a maioria dos líderes políticos permanece emudecida. O Próprio Palácio do Planalto tem evitado entrar diretamente nas discussões sobre o caso. Um dos motivos seria Augusto Ferreira Lima, conhecido como “Guga Lima”, ex-sócio de Vorcaro, que já foi solto e deve depor até o final de janeiro. Sua relação com o PT na Bahia seria tão grande quanto as conecções do dono do Master com o Centrão.
Esse silêncio aumenta a sensação de desconforto, sobretudo quando se consideram lançamentos de suspeitas públicas contra aliados ou doadores políticos próximos. Por exemplo, o cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, aparece ligado a doações eleitorais robustas a campanhas de figuras da direita em 2022, o que levantou pedidos de quebra de sigilo bancário na CPI do INSS e questionamentos sobre possíveis vínculos entre interesses financeiros e políticos.
A investigação ainda está em estágio inicial em muitos aspectos, mas há indicações de que a análise detalhada de celulares, computadores e documentos apreendidos poderá revelar redes de comunicação e transações que extrapolam a atuação de Vorcaro isoladamente. A eventual colaboração premiada (delação) de Vorcaro ou de integrantes mais próximos de sua organização seria um divisor de águas, capaz de trazer à tona conexões mais profundas com atores do mercado financeiro, setores políticos e até estruturas administrativas.
Esse cenário coloca em xeque não apenas a integridade dos mercados, mas também a capacidade do Estado de enfrentar redes complexas de fraude financeira, especialmente quando elas parecem se cruzar com interesses políticos amplos ou com a omissão de parcelas significativas do próprio Legislativo.
O caso Banco Master já ultrapassou o âmbito financeiro para se tornar um teste de resistência institucional. Se provas contundentes emergirem da perícia ou se delações trouxerem à luz relações com políticos de alto escalão, o desdobramento não será apenas jurídico — será um choque de legitimidade para setores inteiros da política nacional. Até agora, o silêncio de parlamentares e o uso estratégico de sigilo processual indicam que muitos preferem aguardar a definição dos fatos antes de se posicionar, ou talvez evitar a exposição de vínculos incômodos.
O Brasil assiste a uma investigação que, potencialmente, poderá implodir medalhões ou redes de influência que operam nas fronteiras entre economia, política e poder — mas o caminho ainda é incerto, sobretudo se a perícia e a atuação política conseguirem resistir às pressões por fragmentação ou neutralização dos elementos acusatórios.
Síntese das relações com grupos políticos e econômicos
Fabiano Zettel é o nome com conexão política mais direta: suporte financeiro declarado a campanhas importantes (Bolsonaro, R$ 3 milhões e Tarcísio, R$ 2 milhões) e atuação em redes evangélicas influentes.
Nelson Tanure e João Carlos Mansur não aparecem associados a doações eleitorais relevantes, mas têm perfis de investidores influentes e gestores de recursos financeiros e são investigados pela PF por suas relações corporativas com o Master, o que pode ter implicações políticas indiretas via economia e grandes negócios.
A menção de Tanure e Mansur em razão de busca e apreensão da PF indica suspeita de que seus vínculos financeiros ou societários com o Master possam ser peças centrais na compreensão do fluxo de recursos do esquema sob apuração.
A relação de Zettel com figuras políticas é direta e documentada, especialmente por meio de doações eleitorais e presença em redes de influência religiosa.
Tanure e Mansur estão ligados ao caso principalmente pela dimensão financeira e de mercado, com possíveis implicações que podem chegar a atores políticos indiretamente — uma vez que investimentos e grandes fluxos financeiros podem influenciar decisões públicas ou beneficiar atores com poder de lobby.