A corrida presidencial deste ano não se organiza apenas em torno de nomes, mas sobretudo de estratégias. Nesse tabuleiro, o PSD de Gilberto Kassab ocupa uma posição singular: não lidera as pesquisas, não fecha questão ideológica e, ainda assim, tornou-se um dos partidos mais cobiçados do processo eleitoral. Com a filiação de Ronaldo Caiado, governador de Goiás, o PSD passa a reunir três potenciais presidenciáveis — Caiado, Ratinho Júnior (Paraná) e Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) — e explicita uma ambição maior do que simplesmente lançar um candidato ao Planalto.
A chegada de Caiado, após deixar seu antigo partido por falta de espaço, reforça o peso político do PSD, mas também evidencia suas contradições internas. Caiado tem trajetória, discurso firme na segurança pública e forte identidade conservadora, mas enfrenta dois obstáculos relevantes: desempenho inferior nas pesquisas em relação a Ratinho Júnior e uma rejeição mais elevada. Ratinho, por sua vez, pontua melhor nacionalmente e apresenta menor resistência junto ao eleitorado, ainda que careça de densidade política fora do eixo Sul-Sudeste. Eduardo Leite completa o trio como uma opção mais moderada, com apelo ao centro, mas menor tração no eleitorado de direita.
Diante desse quadro, a pergunta central é inevitável: Caiado terá no PSD o espaço que não encontrou em seu antigo partido? A resposta mais realista é não — ao menos não agora. Kassab opera com pragmatismo frio. O partido observa números, rejeição, potencial de crescimento e, principalmente, utilidade estratégica. No PSD, candidatura não é ponto de partida, é consequência.
Esse cálculo fica ainda mais claro quando se observa a posição do partido no espectro ideológico. Kassab faz questão de afirmar que o PSD é de centro-direita, mas não embarca na radicalização que passou a definir o PL sob o bolsonarismo. O candidato do campo mais duro da direita é Flávio Bolsonaro, herdeiro político direto do ex-presidente e hoje o nome que concentra a preferência da base bolsonarista, segundo a pesquisa Quaest divulgada em 14 de janeiro. O PSD não disputa esse eleitor pela confrontação direta, mas pela alternativa: uma direita sem ruptura institucional, sem discurso extremado e com capacidade de diálogo.
É nesse ponto que a leitura do professor e consultor de Marketing Político, Marcelo Vitorino, ajuda a compreender o jogo em curso. Segundo ele, Kassab “quer estar perto o suficiente para negociar com a direita e longe o suficiente para negociar com Lula se precisar”. Não se trata de ambiguidade, mas de método. "Kassab ocupa ministérios no governo Lula sem ser lulista, é secretário no governo Tarcísio de Freitas sem ser bolsonarista e mantém três pré-candidatos sem se comprometer com nenhum. Enquanto outros partidos se trancam em corredores ideológicos, o PSD mantém todas as portas abertas".
Os cenários traçados por Vitorino ilustram essa lógica. "No primeiro, Kassab escolhe Ratinho Júnior em abril, Caiado e Leite migram para disputas ao Senado, e o PSD se fortalece no Congresso mirando 2027. No segundo, Tarcísio muda de ideia, Kassab embarca imediatamente e transforma seus governadores em palanques regionais. No terceiro, a polarização Lula x Flávio Bolsonaro se consolida cedo, e Kassab negocia apoio no segundo turno em troca de espaço no governo". Em todos eles, o PSD não perde: acumula poder, influência e capacidade de barganha.
A síntese é direta: a terceira via do PSD dificilmente elegerá o presidente, pelos números atuais. Mas Kassab não joga apenas para vencer a eleição. Se Ratinho crescer, ele tem candidato. Se não crescer, ele tem moeda de troca. Se perder, ainda assim terá governadores, a maior bancada de prefeitos do país e peso decisivo no Congresso. O jogo do PSD não é de tudo ou nada. É, como sempre, de garantir alguma coisa — e, de preferência, bastante.