A Câmara de José de Freitas viveu um momento de forte contradição nesta terça-feira (24). Enquanto na mesa de debates se falava sobre a Semana de Conscientização do Autismo e a falta de terapias para crianças na saúde municipal, um vereador usou o plenário para proferir uma expressão de claro teor racista – apenas três dias depois de a Prefeitura local ter assinado o Plano Juventude Negra Viva, tornando-se o primeiro município do Piauí a aderir ao programa federal de combate à violência racial.
A sessão começou com o discurso do vereador Tiago Pinto (MDB), que cobrou mais união entre os parlamentares, citou obras, lembrou da lei que institui a semana do autismo – de sua autoria – e manifestou preocupação com a falta de atendimento a crianças autistas. Foi um debate institucional, focado em políticas públicas.
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Em seguida, o vereador Roberval Carvalho (MDB) tomou a palavra. Ao criticar a forma como o poder público estaria tratando um cidadão ele soltou a frase que gerou o estranhamento e a polêmica: “…com neguinho dançando, pinotando, parecendo um macaquinho…”. O trecho do vídeo rapidamente rodou em redes sociais.
A expressão carrega dois estereótipos racistas históricos: a referência pejorativa a um homem negro como “neguinho” e, principalmente, a comparação com um macaco – uma das formas mais graves de animalização e inferiorização da pessoa negra no Brasil. O termo “pinotando”, associado a uma dança desengonçada ou ridícula, completa o tom de deboche.
Apenas 72 horas antes, em 21 de março – Dia Internacional contra a Discriminação Racial –, a Prefeitura de José de Freitas, em cerimônia com representantes de movimentos negros e do governo federal, assinou o Plano Juventude Negra Viva. O ato foi apresentado como um marco de compromisso do município com políticas de igualdade racial e combate ao racismo.
Ou seja: na mesma semana em que o Executivo municipal assume publicamente uma agenda antirracista, um vereador de oposição profere no Legislativo uma fala que reproduz exatamente o tipo de estereótipo que o plano se propõe a combater.
É possível que o vereador Roberval Carvalho não tenha tido a intenção consciente de ser racista. Talvez tenha reproduzido, de forma automática e acrítica, uma expressão que ainda circula em certos ambientes. Mas essa falta de intenção não anula o efeito da fala. As palavras escolhidas foram publicamente proferidas, gravadas e transmitidas. Elas ecoam um imaginário que inferioriza e ridiculariza a pessoa negra, e sua divulgação tende a reverberar justamente entre aqueles que ainda naturalizam esse tipo de linguagem.
As repercussões podem ser imediatas e organizadas
Em um contexto de crescente organização dos movimentos negros e de maior sensibilidade social ao racismo, falas como essa não passam em branco. É esperado que coletivos, entidades do movimento negro, defensores públicos e até o Ministério Público tomem conhecimento do caso. As possíveis consequências vão desde notas públicas de repúdio e pressão por retratação até a abertura de procedimentos por injúria racial ou representação no Conselho de Ética da Câmara.
Além do aspecto legal, há o dano político: a fala mancha a imagem do legislativo municipal no exato momento em que a cidade tenta se projetar como pioneira em políticas raciais. Coloca sob desconfiança o compromisso real dos representantes com a pauta antirracista.
Mais do que um caso isolado, a fala do vereador Roberval Carvalho expõe uma desconexão que ainda persiste em muitas casas legislativas: de um lado, discursos institucionais de combate ao racismo; de outro, a reprodução não criticada de vocabulário e estereótipos racistas no dia a dia parlamentar.
A responsabilidade de um vereador vai além de votar projetos; inclui o cuidado com a palavra pública. Mesmo que sem intenção preconceituosa, o uso de termos que historicamente humilham e inferiorizam um grupo racial é inadmissível – especialmente em um país onde o racismo ainda é uma chaga aberta e diária. Em José de Freitas, a contradição entre o plano assinado na segunda e a fala proferida na terça mostra que, entre a intenção e o gesto, há um abismo que precisa ser urgentemente superado.