Isolamento e risco de delação influenciaram mudança de presídio de Vorcaro

Polícia Federal se assusta, muda de estratégia e até STF oferece proteção para família de Mendonça

A estratégia da Polícia Federal, até a última quarta-feira (4), era de manter o dono do banco Master, Daniel Vorcaro, em um presídio estadual, em uma cela compartilhada entre oito detentos, sem luxo e sem risco.

Inicialmente, ele foi encaminhado ao presídio 2 de Potim, no interior de São Paulo, que não acolhe presos faccionados ou considerados de alta periculosidade.

  
Daniel Vorcaro Reprodução
 
 
 

Nos bastidores, a iniciativa poderia influenciar o banqueiro a delatar. Mas, nesta quinta-feira (5), a PF pediu para mudar tudo.

O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça acatou prontamente o pedido e determinou a transferência de Daniel Vorcaro para Penitenciária Federal de Brasília.

Na prática, na penitenciária federal Vorcaro ficará incomunicável. Isso porque mesmo durante a prisão domiciliar que cumpria desde dezembro, com uso de tornozeleira eletrônica, o banqueiro continuou monitorando adversários e jornalistas, e tentando influenciar a produção de matérias jornalísticas e conteúdo em redes sociais que o colocassem como o mocinho da história.

Uma das investigações sob os cuidados da inteligência da Polícia Federal aponta para o pagamento de influenciadores para politizar o esquema e colocar a culpa no Banco Central.

Uma apuração em andamento também aponta para o vazamento de contratos e serviços que ele tinha com autoridades por meio do Master e de outras empresas, para tentar intimidar essas autoridades.

A PF deve pedir a prisão de Vorcaro com base nos pagamentos que ele fez aos blogueiros.

Depois de mandar prender novamente Vorcaro, o próprio STF ofereceu segurança reforçada ao ministro relator do caso, André Mendonça, e a seus familiares próximos.

A decisão sobre a transferência foi tomada depois de uma avaliação sobre os riscos reais que o preso representa, por ter poder de persuasão e influência e uma rede de contatos entre autoridades da República, empresários e criminosos.

Na decisão, Mendonça sustenta que há “risco à segurança pública em decorrência da permanência de Daniel Vorcaro em presídio estadual no estado de São Paulo” porque o “investigado detém significativa capacidade de articulação e influência sobre diversos atores situados em diferentes esferas do poder público e do setor privado”.

Na penitenciária Federal, Vorcaro não poderá ter nenhum contato não assistido, nem visitas íntimas. Toda comunicação com os advogados, inclusive, acontece no parlatório, com vidro e monitoramento de agentes penitenciários federais.

Sem poder mandar recado, Vorcaro perderá liderança de seu grupo do lado de fora e, como diz na decisão de Mendonça, a “potencial capacidade do investigado de mobilizar redes de influência com aptidão para, direta ou indiretamente, interferir na regular condução das investigações”.

Depois da tentativa de suicídio de Luiz Phillipe Mourão, o Sicário, homem da segurança de Vorcaro, dentro da superintendência da PF em Minas, a preocupação da polícia com esse caso foi redobrada.

Sicário seria coordenador de uma rede de monitoramento ilegal e ameaças montada por Vorcaro. Na decisão, Mendonça também afirma que a ida de Vorcaro para a Penitenciária Federal também serve “como forma de melhor garantir da integridade física do próprio preso”.

Para a defesa de Vorcaro, no entanto, a notícia não foi boa. Segundo o advogado Pierpaolo Bottini, “o presídio federal limita muito contato com os advogados”.