No A10Cast, delegada Eugênia Villa fala sobre violência de gênero, feminicídio e conscientização; assista!

Ao lembrar episódios marcantes, a delegada destaca o caso Janaína Bezerra. Para ela, trata-se de um dos exemplos mais dolorosos de feminicídio sexual

*Por Marco Sena, estagiário sob supervisão de Marcelo Gomes

Para discutir o enfrentamento à violência contra a mulher, a disseminação de informações falsas sobre violência de gênero e a importância da conscientização, o A10Cast deste sábado (11) recebe a delegada Eugênia Villa. Reconhecida nacionalmente por sua atuação na área, ela é a criadora da primeira delegacia especializada na investigação de feminicídios do Brasil.


Logo no início da entrevista, Eugênia explica que a violência de gênero possui diferentes formas e deve ser analisada considerando o vínculo entre vítima e agressor, especialmente quando a violência é praticada por alguém com quem a mulher convive ou já conviveu.

Fake news sobre violência de gênero

Questionada pela apresentadora Beatriz sobre discursos que afirmam que mulheres praticam mais violência do que homens, Eugênia rebate a informação e afirma que não existem evidências científicas que sustentem essa tese.

  

Delegada Eugênia Villa no A10Cast desta semana A10+

   

"Não tem essas evidências, isso não existe. Isso é fake news", declarou. Segundo a delegada, quem faz esse tipo de afirmação deveria apresentar estudos com metodologia científica, o que, segundo ela, não ocorre.

Ela acrescenta que, nos casos em que mulheres matam seus companheiros, geralmente há um histórico de violência sofrida ao longo da relação. Eugênia cita estudos do delegado João Marcelo como base para essa análise.

Casos que marcaram sua trajetória

Ao lembrar episódios marcantes de sua carreira, a delegada destaca o caso da estudante de jornalismo Janaína Bezerra. Para ela, trata-se de um dos exemplos mais dolorosos de feminicídio sexual, devido à demonstração de poder exercida pelo agressor. Eugênia afirma que a morte de uma jovem com tantas perspectivas de futuro torna o caso ainda mais impactante.

  

Janaína Bezerra foi estuprada e morta após calourada dentro da UFPI Reprodução

   

Outro episódio citado envolve a proprietária de um prostíbulo, assassinada por um cliente que se sentiu contrariado por uma funcionária do estabelecimento. Após o crime, o homem levou o corpo da vítima para um quarto e manteve relações sexuais com o cadáver.

A delegada explica que, em 2016, o feminicídio ainda não estava tipificado como crime e a legislação também não permitia enquadrar esse ato como estupro, uma vez que, juridicamente, um cadáver era considerado uma coisa.

Lei Maria da Penha e conscientização

Ao responder se a sociedade está mais consciente sobre a violência contra a mulher, Eugênia analisa os avanços a partir da Lei Maria da Penha.

Segundo ela, a idade média dos autores de feminicídio é de 29 anos. Isso significa que muitos tinham cerca de nove anos quando a lei foi sancionada, em 2006, crescendo em um contexto marcado por sua vigência e por ações de conscientização.

Apesar disso, a delegada ressalta que a legislação, por si só, não é suficiente para transformar a realidade. Para ela, é necessário promover mudanças culturais, fortalecendo a participação das mulheres na produção de conhecimento, na elaboração de políticas públicas e nos espaços de decisão.

Como exemplo, cita o Supremo Tribunal Federal (STF), onde apenas uma das onze cadeiras é ocupada por uma mulher, defendendo maior representatividade feminina nas instituições responsáveis pela tomada de decisões.