Derrota de Flávio Bolsonaro e fuga para os EUA expõe limites do projeto de Trump na América do Sul

Trump embarcou em várias frentes de guerras. Externa, como contra o Irã e internas, que derrubaram popularidade e aumentaram abusos contra democracia

A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no segundo turno de domingo (25), representa um revés para Donald Trump e para a estratégia de projetar influência na América do Sul por meio de aliados ideológicos. A aposta na candidatura do senador não se limitava à disputa brasileira: estava ligada a uma agenda de aproximação com a família Bolsonaro e de pressão sobre o governo Lula. Agora, além da derrota nas urnas, Flávio deixa o país em meio a investigações criminais e a uma ordem judicial que determinava a entrega de seus passaportes. A Reuters confirmou que ele foi para os Estados Unidos; informações posteriores indicam que ele e a família cruzaram a fronteira com a Argentina e seguiram em voo privado para o Equador, após receberem vistos norte-americanos. 

A saída ocorreu depois de o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar que Flávio entregasse os passaportes comum e diplomático e o proibisse de deixar o Brasil. O prazo terminou sem a apresentação dos documentos, que foram cancelados pela Polícia Federal. Segundo relatos de aliados à imprensa, o senador teria deixado o país por receio de ser preso. A viagem, portanto, não foi anunciada como uma agenda política regular: aconteceu após uma medida cautelar judicial e pode agravar sua situação perante a Justiça. Especialistas ouvidos pela imprensa avaliam que a saída pode fundamentar um pedido de prisão preventiva, embora isso dependa de decisão judicial.

  
Derrota de Flávio Bolsonaro e fuga para os EUA expõe limites do projeto de Trump na América do Sul Reprodução
 
 
 

Antes mesmo da eleição, Flávio já era investigado em duas frentes no STF. Uma delas apura suspeitas de lavagem de dinheiro e possível vínculo societário oculto com o advogado Willer Tomaz, em negócios relacionados a empresas e apostas. O nome do senador aparece em apurações que envolvem a Alcazar Holdings, sediada em Portugal, e a BestBet. Flávio e Tomaz negam irregularidades. A segunda investigação examina recursos que o senador teria solicitado ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para financiar o filme Dark Horse, sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro. Nesse caso, as suspeitas incluem corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O senador afirma que os recursos eram privados e rejeita as acusações. 

A derrota eleitoral também tem consequência política e jurídica: Flávio não terá a proteção temporária que poderia decorrer de uma eventual Presidência e deverá deixar o Senado em fevereiro de 2027, perdendo o foro especial ligado ao mandato. A fuga, se confirmada nos termos relatados, não encerra as apurações. Ao contrário, pode ampliar o debate sobre risco de evasão e sobre a possibilidade de medidas cautelares mais severas. A Justiça ainda precisará decidir os próximos passos, respeitando o devido processo legal e a presunção de inocência. 

O episódio se conecta à crise democrática dos Estados Unidos. A atuação de Trump — com pressão sobre instituições, confrontos com aliados e uso de tarifas como instrumento político — tem sido apontada por pesquisadores e entidades como parte de um processo de erosão institucional. A recepção de Flávio e de sua família pelo governo norte-americano, em meio a investigações brasileiras e a uma ordem de entrega de passaportes, pode abrir uma nova frente de tensão diplomática entre Washington e Brasília. Para o governo Trump, a derrota do aliado brasileiro enfraquece a tentativa de organizar a região em torno de lideranças alinhadas à Casa Branca; para o Brasil, o caso recoloca em pauta a soberania nacional e os limites da interferência externa. 

Enquanto Trump projeta força no exterior, enfrenta desgaste dentro dos Estados Unidos. Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em 26 de outubro registrou aprovação de 32%, próximo do menor patamar de seu mandato, e vantagem dos democratas na preferência genérica para o Congresso. Levantamento AP-NORC mostrou que apenas 17% aprovam sua condução do custo de vida e que 65% responsabilizam as políticas do presidente pelos preços elevados; as tarifas também são vistas como fator de pressão sobre consumidores e empresas. Às vésperas das eleições legislativas de 3 de novembro, o quadro indica que a política de confronto — “tiro, porrada e bomba” no plano externo e tarifaço na economia — pode custar apoio eleitoral. A derrota de Flávio, nesse cenário, não é apenas um revés para o bolsonarismo: expõe os limites de uma estratégia internacional que enfrenta resistência nas urnas brasileiras e crescente insatisfação entre os próprios americanos. 

Enquanto governos de direita e centro-direita da América do Sul estreitaram relações com Donald Trump, o Brasil manteve a parceria com os Estados Unidos, mas sem aderir ao alinhamento político pretendido pela Casa Branca, mais submisso. Pela dimensão de sua economia, peso diplomático e influência global, o país era o sonho de consumo da direita trumpista: conquistar Brasília significaria ampliar a influência de Washington na região e reunir mais um governo em torno de sua agenda. A derrota de Flávio Bolsonaro frustrou essa tentativa de aproximação e impediu que o Brasil se tornasse mais um aliado ideológico de Trump.