CNJ afasta juiz do TJPI após anulação de inquérito sobre esquema criminoso do PCC no setor de combustíveis

Segundo CNJ, existem indícios de possíveis irregularidades na conduta do juiz Valdemir Ferreira Santos, incluindo eventual usurpação de competência

Atualizada às 16h02

A Corregedoria Nacional de Justiça (CNJ) determinou o afastamento do juiz Valdemir Ferreira Santos de suas funções no Tribunal de Justiça do Piauí (TJPI). A decisão foi tomada após o magistrado anular um inquérito relacionado à Operação Carbono Oculto 86. As investigações apontam que o esquema movimentou cerca de R$ 5 bilhões, interferindo diretamente na concorrência, nos preços e na arrecadação fiscal. 

Na época dos fatos, Valdemir Ferreira Santos era responsável pela Central de Inquéritos de Teresina e decidiu invalidar a investigação que apurava suspeitas de lavagem de dinheiro e atuação de organização criminosa envolvendo empresários da rede de Postos HD no estado.

  

Juiz Valdemir Ferreira Santos
TJ-PI

   

De acordo com o CNJ, existem indícios de possíveis irregularidades na conduta do juiz, incluindo eventual usurpação de competência. O órgão afirma que o magistrado determinou o trancamento do inquérito mesmo após o Ministério Público apresentar a denúncia.

Ainda segundo o conselho, a decisão também revogou medidas cautelares que já haviam sido restabelecidas pelo TJPI, além de ordenar a retirada de provas de uma ação penal que tramitava em outro juízo.

Além do afastamento, o CNJ instaurou uma correição no gabinete do magistrado e determinou o bloqueio de seu acesso aos sistemas eletrônicos e às dependências do Tribunal de Justiça.

O que diz o TJ-PI?

Em nota encaminhada ao A10+, o Poder Judiciário do Piauí informou que recebeu a comunicação oficial acerca da decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) que determinou, entre outras medidas, o afastamento cautelar do juiz Valdemir Ferreira Santos de suas funções.

"O Tribunal de Justiça do Piauí, em seu compromisso com a legalidade, a transparência e o respeito às instituições, ressalta que cumprirá integralmente a decisão e que os fatos serão apurados pelas autoridades competentes, dentro do devido processo legal. O TJPI assegura a continuidade dos serviços jurisdicionais e reafirma sua missão constitucional de garantir o acesso à Justiça e a confiança da sociedade piauiense em suas instituições", disse.

Operação Carbono Oculto

Deflagrada em novembro do ano passado pela Receita Federal e pelo Ministério Público de São Paulo, a Operação Carbono Oculto investiga a suposta infiltração da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) em empresas do setor de combustíveis.

  

MP contesta decisão que trancou investigação que apura esquema criminoso no setor de combustíveis no Piauí
Reprodução

   

A decisão do juiz beneficiou a investigação envolvendo Haran Santhiago Girão Sampaio e Danilo Coelho de Sousa. Na fundamentação, o magistrado entendeu que a utilização de Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) do Coaf não observou os parâmetros definidos pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), em decisão recente sobre o compartilhamento dessas informações.

Ao invalidar o inquérito, Valdemir Ferreira Santos citou a liminar proferida por Alexandre de Moraes em 27 de março deste ano, que estabeleceu novas diretrizes para o uso dos relatórios de inteligência financeira produzidos pelo Coaf.

MP chegou a contestar decisão que trancou investigação

O Ministério Público do Estado do Piauí (MPPI) descordou da decisão judicial que determinou o trancamento de uma das investigações que apuram esquema complexo envolvendo organização criminosa, lavagem de capitais e fraudes no setor de combustíveis, com atuação estruturada no estado, a operação Carbono Oculto 86, deflagrada em outubro do ano passado no Piauí. As investigações apontam que o esquema movimentou cerca de R$ 5 bilhões, interferindo diretamente na concorrência, nos preços e na arrecadação fiscal. 

  

Polícia deflagra operação que investiga infiltração do PCC no setor de combustíveis no Piauí
SSP-PI

   

Em nota, o órgão destacou que já recorreu e adotou as providências processuais cabíveis para reverter a situação. De acordo com o MPPI, a decisão não tem qualquer validade jurídica por ter sido proferida por juízo absolutamente incompetente. Isso porque, no momento em que foi prolatada, já havia denúncia apresentada em procedimento correlato, o que, conforme a legislação processual penal e o julgamento de Ação Direta de Inconstitucionalidade, encerra a competência do juízo das garantias e transfere a análise do caso ao juízo da instrução e julgamento.

O Ministério Público sustentou que, nessas circunstâncias, qualquer deliberação posterior, especialmente medida extrema como o trancamento da investigação, deveria ter sido submetida ao juízo competente para a fase processual. Por essa razão, entende que a decisão apresenta nulidade absoluta e deve ser revista.

O Ministério Público destacou também que, mesmo em caráter subsidiário, o conjunto probatório reunido é amplo e robusto, composto por múltiplas fontes independentes de prova, como relatórios técnicos, boletins de ocorrência, documentos fiscais, dados telemáticos e outras diligências regularmente autorizadas.

Operação Carbono Oculto 86

O A10+ teve acesso ao documento que detalha a infiltração do PCC no setor de combustíveis do Piauí e que resultou na Operação Carbono Oculto 86, deflagrada em Teresina. Pelo menos seis pessoas físicas foram identificadas com participação no esquema criminoso e quase 50 postos de combustíveis foram interditados. As investigações apontaram que o PCC movimentou R$ 5 bilhões usando 49 postos de combustíveis no Piauí, Maranhão e Tocantins.


O documento afirma que o inquérito foi instaurado após a venda da Rede de Postos HD, que contém unidades no Piauí, Maranhão e em Tocantins. A investigação constatou inconsistências patrimoniais, alterações societárias simultâneas e criação de empresas em local sem lastro econômico compatível com o volume de negócios.

O inquérito identificou pelo menos 70 CNPJs relacionados direta ou indiretamente às empresas envolvidas, além de mais 500 notas fiscais emitidas por distribuidoras vinculadas ao PCC.

Dentre todas as empresas investigadas, o valor total de movimentações financeiras atípicas chega a R$ 5 bilhões, sendo que somente no Piauí foram mais de R$ 300 milhões monitorados. Denis Villani, empresário, fez transferência de mais de R$ 700 mil para empresa controlada por laranja, ligada ao PCC.