A prisão do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em uma ação conduzida pelos Estados Unidos em território venezuelano reacendeu tensões políticas na América do Sul e colocou o Brasil novamente no radar das discussões geopolíticas. Embora o episódio tenha forte repercussão diplomática, economistas ouvidos pelo R7 avaliam que os impactos econômicos imediatos para o Brasil são, até agora, limitados, mas o cenário exige atenção constante.
Nessa segunda-feira (5), Maduro passou por audiência de custódia em Nova York. Ele negou as acusações de narcoterrorismo e conspiração para o envio de cocaína aos Estados Unidos.
Na avaliação do economista, sociólogo e professor da Universidade de Brasília César Bergo, a interferência dos EUA não produz, no curto prazo, efeitos relevantes sobre a economia brasileira. Segundo ele, a relação econômica direta entre Brasil e Venezuela já é limitada, o que reduz riscos imediatos. Ainda assim, o contexto internacional pede cautela.
Bergo lembra que, historicamente, o Brasil buscou manter a Venezuela integrada à região, inclusive apoiando sua entrada no Mercosul. Esse movimento, no entanto, enfraqueceu-se nos últimos anos, especialmente após questionamentos internacionais sobre a legitimidade da reeleição de Maduro. A atual ofensiva norte-americana, avalia o economista, torna o ambiente ainda mais sensível.
“O Brasil precisa se posicionar contra ataques externos à Venezuela, mas com prudência. Ainda há muitas informações desencontradas sobre o que de fato está acontecendo, e qualquer precipitação pode gerar custos diplomáticos e econômicos”, argumenta.
Mercado reage com cautela
No mercado financeiro, os reflexos do episódio foram pontuais. Houve volatilidade inicial, mas o câmbio e a bolsa se estabilizaram, com o dólar em queda e ações em alta, à exceção de papéis ligados ao setor de petróleo. Esse ponto concentra os principais riscos indiretos.
Bergo destaca que a Petrobras já teve operações na Venezuela e que o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) financiou obras no país. Além disso, o petróleo permanece como ativo estratégico em qualquer rearranjo geopolítico regional, o que pode gerar impactos mais à frente, dependendo da evolução do cenário.
Efeitos graduais
Para Felippe Serigati, pesquisador da FGV Agro, o momento pede atenção, mas sem alarmismo. Segundo ele, os acontecimentos na Venezuela ainda não “fizeram preço” no mercado internacional de petróleo. O barril do tipo Brent segue oscilando entre US$ 60 e US$ 62, patamar considerado dentro da normalidade.
O peso venezuelano no mercado global hoje é muito menor do que no passado, o que explica a reação contida. “É diferente do que ocorreu, por exemplo, com a guerra da Ucrânia. A Venezuela não tem mais o mesmo papel como exportadora global”, analisa.
Mesmo em um cenário de maior entrada de empresas norte-americanas no setor petrolífero venezuelano, os efeitos sobre o Brasil tenderiam a ser graduais. “Esse tipo de movimento exige tempo, investimento e reestruturação da indústria local. Não acontece do dia para a noite”, constata Serigati.
Impactos na fronteira
Além dos indicadores macroeconômicos, especialistas chamam atenção para possíveis impactos sociais localizados, sobretudo em regiões de fronteira. Estados como Roraima poderiam sentir efeitos indiretos em caso de nova instabilidade política ou humanitária na Venezuela.
Ainda assim, Serigati avalia que esse não é o cenário-base no momento. Desde 2015, cerca de 1,1 milhão de venezuelanos passaram pelo Brasil, mas o fluxo migratório perdeu força nos últimos anos. “Quem tinha que sair, em grande parte, já saiu”, ressalta. No plano nacional, os efeitos sobre indicadores como o IDH seriam irrelevantes, embora municípios fronteiriços possam demandar atenção caso a crise se agrave.
Defesa da estabilidade na América do Sul
Para os especialistas, o principal alerta não está na dependência econômica entre Brasil e Venezuela, hoje restrita, mas no avanço da influência dos Estados Unidos sobre a condução política e econômica do país vizinho. Esse movimento reforça a necessidade de o Brasil manter canais diplomáticos abertos, fortalecer o diálogo regional e defender a estabilidade sul-americana.
No campo econômico, o diagnóstico é claro: os riscos diretos são baixos, mas o ambiente internacional segue volátil. Em um cenário de disputas entre grandes potências, qualquer escalada tende a ampliar a incerteza global e, neste tabuleiro, a atuação do Brasil pode ser decisiva para evitar efeitos mais amplos na região.