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O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) anunciou nesta quarta-feira (5) o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice-presidente em sua chapa na disputa pelo Palácio do Planalto. A escolha fecha uma negociação que se arrastou por meses e terminou de uma maneira diferente daquela inicialmente buscada pelo PL: em vez de uma composição com outro partido, Flávio disputará a eleição em uma chapa pura, com fez seu pai em 2022, quando Jair Bolsonaro teve Walter Braga Netto ao seu lado.
A decisão foi anunciada no último dia destinado às convenções partidárias. Flávio havia afirmado anteriormente que poderia divulgar o vice somente até 15 de março, mas antecipou a definição diante do risco de questionamentos judiciais sobre o prazo.

Divulgação
Mais do que a escolha de Alfredo Gaspar, porém, a composição mostra os limites encontrados por Flávio na tentativa de ampliar formalmente sua aliança presidencial.
O PL procurava um nome de outra legenda que pudesse acrescentar setores eleitorais que não estão naturalmente dentro do bolsonarismo. A prioridade passou por partidos do Centrão, mas PP, União Brasil, Republicanos e Podemos evitaram entrar oficialmente na chapa presidencial.
Isso não significa que Flávio esteja sem aliados nessas legendas. Lideranças importantes, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, manifestaram apoio. A diferença é que esse apoio individual não se transformou em uma aliança partidária nacional.
O caso do PP é um dos exemplos mais claros. A senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura de Jair Bolsonaro e nome com forte ligação com o agronegócio, esteve entre as principais alternativas discutidas para a vice. A composição, entretanto, esbarrou na decisão do partido de permanecer neutro na eleição presidencial.
A neutralidade do PP representou um revés importante para o desenho pretendido pelo PL. Tereza Cristina poderia acrescentar à chapa uma liderança feminina, interlocução com o agronegócio e uma ponte com setores mais tradicionais da centro-direita.
Outro nome considerado foi o de Daniella Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal e recém-filiada ao Republicanos. Com passagem pelo governo Bolsonaro e boa interlocução com o mercado financeiro e o empresariado, ela também poderia cumprir a função de ampliar o perfil político da chapa. O Republicanos, porém, decidiu não integrar formalmente nenhuma candidatura presidencial.
Quem é Alfredo Gaspar
Alfredo Gaspar de Mendonça Neto tem 55 anos, nasceu em Maceió e exerce seu primeiro mandato de deputado federal por Alagoas. Antes de entrar na política, construiu carreira no Ministério Público alagoano, onde chegou ao cargo de procurador-geral de Justiça, além de ter comandado a Secretaria de Segurança Pública do estado.
Na Câmara, ganhou maior projeção nacional principalmente pela atuação na área de segurança pública e, mais recentemente, como relator da CPMI do INSS.
Gaspar também vinha construindo seu próprio projeto eleitoral para 2026. Antes de ser escolhido para a vice de Flávio, trabalhava para disputar uma das duas vagas de Alagoas no Senado e aparecia competitivo nas pesquisas estaduais.
Sua aproximação com Flávio não começou agora. A filiação de Alfredo Gaspar ao PL, em março, contou com apoio direto do presidenciável, e o deputado assumiu também o comando da legenda em Alagoas.
Politicamente, Gaspar oferece a Flávio um perfil alinhado ao discurso da direita na segurança pública e no combate à corrupção, além de colocar um nordestino na chapa — região onde o candidato do PL enfrenta uma disputa eleitoral particularmente difícil.
Por outro lado, sua escolha não produz aquilo que o PL buscou durante boa parte das negociações: acrescentar um novo partido à coligação presidencial.
Chapa pura foi saída após portas fechadas
É justamente aí que está a principal leitura política da decisão.
Uma candidatura presidencial normalmente utiliza a vice para ampliar alianças, incorporar outro partido, ganhar tempo e estrutura eleitoral e conversar com segmentos nos quais o cabeça de chapa apresenta dificuldades.
Tereza Cristina poderia representar agronegócio, centro-direita e eleitorado feminino. Daniella Marques agregaria uma mulher com perfil econômico e trânsito empresarial. Uma composição com Republicanos ou PP também aumentaria formalmente o tamanho político da candidatura.
Nada disso avançou.
As legendas de centro preferiram não atrelar nacionalmente suas estruturas a Flávio Bolsonaro, preservando liberdade para que seus diretórios estaduais façam diferentes alianças.
A consequência foi uma situação aparentemente contraditória: Flávio poderá receber apoio de governadores, deputados, senadores e dirigentes pertencentes a outros partidos, mas sem conseguir colocar esses partidos oficialmente dentro de sua chapa.
Alfredo Gaspar aparece, portanto, como uma solução politicamente segura para o PL. É aliado, tem discurso identificado com a direita, possui projeção nacional recente e não depende da autorização de outra legenda.
Mas a escolha também expõe uma realidade da candidatura: Flávio Bolsonaro vai de chapa pura não porque faltaram nomes fora do PL, mas porque as negociações para transformar esses nomes em uma aliança partidária não prosperaram.
Agora, a campanha terá de tentar construir durante a disputa eleitoral aquilo que não conseguiu formalizar na montagem da chapa: ampliar o bolsonarismo para além do próprio PL.