Separatistas de Camboriú-SC culpam o Nordeste, mas ignoram a história e atacam o pacto federativo - Bastidores
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OPINIÃO

Separatistas de Camboriú-SC culpam o Nordeste, mas ignoram a história e atacam o pacto federativo

Movimento “O Sul é o meu país” usa a suposta falta de retorno de recursos para defender a separação do Brasil


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A proposta de separar os estados do Sul do restante do Brasil voltou a aparecer em uma mobilização realizada em Balneário Camboriú-SC após a derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para o Presidente Lula (PT). Reportagem do Jornal Razão, mostra um dos organizadores do movimento "O Sul é o meu país" defender que os recursos arrecadados em Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul permaneçam, em maior proporção, na própria região. Para justificar a reivindicação, afirma que, de cada R$ 100 enviados por Santa Catarina a Brasília pouco retorna. Houve ainda crítica ao Nordeste pela vitória em todos os estados para o candidato do Partido dos Trabalhadores.

  
Separatistas de Camboriú-SC culpam o Nordeste, mas ignoram a história e atacam o pacto federativo Reprodução
 
 
 

“Os recursos que são produzidos aqui no Sul do país — Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná — são enviados para Brasília. Infelizmente, retorna muito pouco recurso para os nossos estados. Para você ter uma ideia, de cada R$ 100 que Santa Catarina está enviando para Brasília, retornam apenas R$ 14. Então, nós estamos buscando a autonomia do Sul do nosso país, a liberdade para que a gente possa tomar as nossas decisões e, de fato, que os recursos fiquem aqui. Ficaram indignados com o resultado das últimas eleições, onde, infelizmente, o Nordeste continua tomando as decisões de votar na esquerda. Os dados são claros: o Nordeste fica com boa parte dos recursos que são produzidos no Sul do país. Então, as pessoas estão indignadas, elas querem que os recursos fiquem aqui. Existe uma democracia através do voto, mas não existe democracia em relação à liberdade e àquilo que nós produzimos”, afirmou um dos organizadores do movimento. A contagem final da consulta ficou em 314 a favor da separação e 27 contra.

No entanto, a visão simplista dos separatistas ignora o pacto federativo e o esquecimento da região Nordeste pelo governo central, abrindo possibilidade para que outras regiões crescessem ainda mais. Nordestinos foram usados por muitas décadas tão somente como massa de manobra por grandes proprietários de terras, os chamados coronéis e seus currais eleitorais ligados a grandes políticos. A diferença entre as regiões não surgiu de uma escolha recente dos eleitores nem pode ser explicada simplesmente pelo destino dos recursos federais. Ela é resultado de um processo histórico complexo e estrutural. 

A “indústria da seca” e a força política dos coronéis

A expressão “indústria da seca” passou a descrever um sistema no qual a calamidade climática era utilizada por setores das elites agrárias para obter recursos, preservar privilégios e manter influência política. O mecanismo era perverso: a população pobre precisava do Estado para sobreviver; os recursos emergenciais eram distribuídos em territórios controlados por grandes proprietários e chefes políticos; e a dependência econômica dificultava a autonomia dos trabalhadores rurais.


Em uma sociedade marcada pelo latifúndio, o acesso ao emprego, à água, à terra e até à assistência pública podia depender da relação com o proprietário rural ou com o chefe político local. Essa estrutura favorecia práticas de clientelismo e controle eleitoral, conhecidas historicamente como coronelismo.

Estudo publicado em 2025 na Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais revisita as denúncias do jornalista Antonio Callado sobre os “industriais da seca”. O trabalho destaca como latifundiários e políticos se beneficiavam de políticas emergenciais e como a desigualdade no acesso à terra e à água ampliava a vulnerabilidade dos mais pobres. A população não era apenas vítima da estiagem. Em muitos lugares, sua vulnerabilidade foi convertida em instrumento de poder.

A seca não explica tudo: a pobreza também foi produzida pela política

Durante décadas, a resposta do poder público às estiagens no Nordeste se concentrou em ações emergenciais, como distribuição de alimentos, obras de açudes e abertura de frentes de trabalho. Essas iniciativas eram necessárias para evitar que milhares de pessoas morressem de fome, mas, em muitos casos, não alteravam as condições que mantinham a população rural vulnerável. A seca atingia sobretudo os trabalhadores sem terra ou com pequenas propriedades, que dependiam da agricultura de subsistência e da oferta de trabalho nas fazendas. Quando a estiagem destruía as plantações e reduzia a atividade econômica, essas famílias ficavam sem renda e passavam a depender da ajuda pública.

O problema é que o socorro emergencial, em vez de ser acompanhado por mudanças estruturais, frequentemente se transformava em instrumento de poder local. 

As chamadas frentes de trabalho são um exemplo dessa contradição. Criadas para empregar retirantes e oferecer alguma renda durante as secas, elas também foram alvo de denúncias de desvio de recursos, favorecimento político e obras realizadas em áreas de interesse de grandes proprietários. O Atlas Histórico da Fundação Getulio Vargas (FGV) registra que, durante a seca de 1958, o chamado Relatório Ramagem apontou irregularidades nas frentes de trabalho do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS). Entre os problemas denunciados estavam trabalhadores “fantasmas”, estradas sem utilidade pública e obras — como açudes, estradas e poços — construídas em propriedades de aliados políticos e grandes fazendeiros. 

O Nordeste começou a mudar com a Sudene — mas o processo foi interrompido

Em 1959, foi criada a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), que passou a defender uma política de planejamento regional, industrialização, modernização da infraestrutura e reorganização da economia rural. A proposta era romper com a ideia de que o Nordeste deveria ser tratado apenas como uma região a ser socorrida durante as estiagens. A industrialização ganhou impulso no início dos anos 1960, com incentivos fiscais e financeiros, incluindo o sistema 34/18-Finor. A estratégia buscava atrair empresas e investimentos para a região. 

Esse processo produziu mudanças relevantes. Entre 1965 e 1977, a participação da indústria no produto regional aumentou, enquanto a agricultura perdeu espaço relativo. A economia nordestina começou a se integrar mais intensamente ao padrão de desenvolvimento capitalista do país. Mas o avanço não foi linear. Após o golpe de 1964, a Sudene perdeu autonomia e o planejamento regional foi progressivamente subordinado a decisões centralizadas. O fim dos planos diretores mais robustos e a redução da importância da política regional enfraqueceram a estratégia original. Entre 1985 e 2002, segundo estudo publicado na Revista Econômica do Nordeste, houve um período de baixo dinamismo e perda de força das políticas de desenvolvimento regional.

Ou seja: o Nordeste não ficou para trás por falta de capacidade de sua população. O desenvolvimento começou a avançar quando houve planejamento e investimento, mas perdeu ritmo quando essas políticas foram enfraquecidas ou interrompidas.

A partir dos anos 2000, a política regional e o planejamento voltaram a ganhar espaço, especialmente na segunda metade da década. O crescimento da economia brasileira, a expansão do crédito, a valorização do salário mínimo e as políticas de transferência de renda contribuíram para ampliar o mercado consumidor e movimentar a economia nordestina. Os números ajudam a dimensionar essa mudança. 

Entre 2002 e 2022, período para o qual há uma série comparável do IBGE sobre o PIB regional, o Nordeste registrou crescimento econômico médio anual de 2,34%, ligeiramente superior aos 2,3% da Região Sul. A participação nordestina no PIB brasileiro passou de 13,1% para 14%, enquanto a participação do Sul variou de 16,2% para 16,5%. Os dados indicam avanço do Nordeste e redução parcial da distância, mas não uma superação da desigualdade estrutural. 

O crescimento, contudo, não foi contínuo nem suficiente para eliminar a diferença de renda. Em 2023, o PIB per capita do Nordeste foi de R$ 27.682, menos da metade dos R$ 61.275 registrados no Sul. A comparação mostra que a economia nordestina avançou, mas ainda parte de uma base muito inferior — resultado de desigualdades históricas de investimento, infraestrutura e produtividade.

Em outras palavras, houve progresso, mas não o suficiente para fechar a distância histórica. 

O voto nordestino não determina sozinho o destino do Brasil

A fala do organizador também associa a proposta separatista ao resultado das eleições presidenciais e afirma que o Nordeste “continua tomando as decisões” ao votar majoritariamente na esquerda.

A declaração transforma uma escolha democrática em argumento de ressentimento regional. O voto dos nordestinos tem o mesmo valor que o voto dos eleitores do Sul, do Sudeste, do Norte e do Centro-Oeste. O presidente é escolhido pelo conjunto do eleitorado brasileiro.

Também não há fundamento para concluir que a distribuição dos recursos federais seja definida simplesmente pela preferência partidária de uma região. A repartição do orçamento envolve regras constitucionais, legislação, políticas públicas e decisões orçamentárias. A insatisfação com a gestão dos recursos públicos é legítima e deve ser debatida. O que exige cuidado é transformar uma cifra sem comprovação em argumento para uma ruptura nacional e atribuir a uma região inteira a responsabilidade por uma escolha eleitoral.

O desenvolvimento regional não é favor: é uma obrigação do Estado

O debate sobre o pacto federativo deve partir desse contexto. Não se trata de negar o esforço produtivo do Sul, nem de ignorar problemas na gestão do orçamento. Trata-se de reconhecer que a distribuição de recursos públicos também tem a função de reduzir desigualdades construídas ao longo de gerações.

O Nordeste não precisa de caridade nem de justificativas permanentes para sua pobreza. Precisa de investimento, infraestrutura, oportunidades e políticas que enfrentem as causas históricas da desigualdade.

A pergunta que deveria orientar o debate não é apenas quanto cada região recebe de volta. É por que, durante tanto tempo, o desenvolvimento brasileiro foi tão concentrado — e o que deve ser feito para que essa concentração deixe de determinar o futuro de milhões de pessoas. O pacto federativo existe justamente para que o desenvolvimento do Brasil não seja privilégio de apenas uma parte do território. É preciso construir um modelo em que as regiões mais desenvolvidas continuem produzindo e investindo, enquanto as menos desenvolvidas ampliem sua capacidade econômica, sua infraestrutura e as oportunidades oferecidas à população.

Fonte: Portal A10+


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Sobre a coluna

Wesslley Sales

Wesslley Sales

Jornalista, Especialista em Marketing Político, Mídias Sociais e Comunicação Produtor, Apresentador e Repórter na TV Antena10 Radialista e Redator

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