Em um momento em que Teresina convive com desafios históricos na área da segurança pública, causa estranheza — para dizer o mínimo — a tentativa de transformar uma cooperação técnica entre a Prefeitura e o Governo do Estado em motivo de desconfiança e medo coletivo. A iniciativa que envolve a Secretaria Municipal de Tecnologia da Informação (SECTI) e a Secretaria de Segurança Pública do Piauí (SSP-PI) nasce com um objetivo claro: ampliar a proteção da população por meio do uso estratégico da tecnologia. Ainda assim, setores insistem em distorcer o debate.
A proposta é direta e tecnicamente consistente: integrar dados da ampla rede municipal de videomonitoramento — mais de quatro mil câmeras instaladas em escolas, hospitais, UPAs, UBS, praças e áreas de lazer — para transformar imagens em inteligência com o Sistema de Policiamento por Inteligência Artificial - SPIA, projeto com 1.200 câmeras de alta tecnologia para combater o crime, fortalecer ações preventivas e dar mais agilidade à resposta das forças de segurança. Nada além disso. Nada de multas a motoristas, ou seja, ação com foco no interesse público.
No entanto, em vez de discutir os ganhos objetivos da cooperação, parte do discurso público tenta induzir a população a acreditar que o sistema seria utilizado para ampliar punições e alimentar uma suposta “indústria da multa”. Uma narrativa que não se sustenta nos fatos e que, curiosamente, ignora explicações já dadas de forma clara pelas autoridades envolvidas. Essa tentativa de descredibilizar a ação surja poucos dias depois de o prefeito Sílvio Mendes (UB) ter demonstrado publicamente indignação com fake news direcionadas à sua administração. Um episódio que reforça a percepção de que a gestão tem sido alvo de ataques sistemáticos, muitos deles sem base na realidade. Diante disso, a pergunta se impõe: trata-se de fogo amigo ou apenas do choro de setores descontentes com a perda de espaço e influência na atual gestão? Em ambos os casos, o prejuízo é coletivo quando o debate público é contaminado por medo e desinformação.
O delegado Anchieta Nery, diretor de Inteligência da Secretaria Estadual de Segurança, é taxativo ao afastar esse tipo de interpretação. Segundo ele, “não existe qualquer direcionamento para uso das câmeras com finalidade de multar cidadãos”. Ao contrário, como também foi destacado, “o que está sendo construído é uma integração para reforçar a segurança, principalmente em áreas sensíveis como escolas e unidades de saúde”.
A inversão dos fatos chama atenção. Não é a Prefeitura que passará a utilizar sistemas estaduais para fiscalização de trânsito; é o Estado que terá acesso à estrutura municipal para potencializar ações de segurança pública, em um modelo de cooperação já adotado em grandes centros urbanos do país. O próprio delegado reforça esse ponto ao afirmar que “a finalidade do sistema é preventiva, voltada à proteção de pessoas e do patrimônio público”.
Outro aspecto convenientemente ignorado por quem aposta no alarmismo é o histórico da atual gestão municipal. A administração do prefeito Sílvio Mendes sempre se posicionou de forma contrária à lógica arrecadatória por meio de penalidades. Como foi ressaltado no debate público, “não faz sentido falar em indústria da multa em uma gestão que, desde o início, tem buscado desmontar esse tipo de prática”. Em nota a SECTI informou que: "o sistema também será usado para prevenção e acompanhamento de catástrofes, como enchentes e trombas d’água, permitindo uma atuação mais rápida em situações de emergência. A cooperação ainda possibilitará o compartilhamento de dados para pesquisa, análise e gestão do tráfego urbano, contribuindo para o planejamento e a segurança viária no município".
Ainda assim, a tentativa de criar medo encontra terreno fértil quando o debate público é substituído por ruído político. Ao invés de informar, desinforma-se. Ao invés de explicar, sugere-se ameaça. E é nesse ponto que a pergunta se impõe: a quem interessa desacreditar uma ação que amplia a segurança de estudantes, profissionais da saúde e da população em geral?
A resposta não está no cidadão que anda com documentação em dia, respeita a sinalização e cumpre as regras de convivência urbana. Como bem pontuou o delegado Anchieta Nery, “quem age dentro da lei não tem nada a temer”. O ganho coletivo é evidente: mais segurança, mais organização e mais capacidade de resposta do poder público diante de situações de risco, inclusive catástrofes naturais e emergências urbanas.
Transformar uma política pública de proteção em objeto de pânico social não é apenas irresponsável; é um desserviço à cidade. O debate é legítimo, a vigilância democrática é necessária, mas a manipulação do medo jamais pode ser instrumento político aceitável. Quando tecnologia e segurança caminham juntas com transparência, quem ganha é Teresina. O resto é ruído — e ruído, quase sempre, tem interesse por trás.