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O fim de ano de 2025 expôs mais um capítulo da polarização brasileira: até a forma de “entrar” no Ano Novo virou motivo de disputa ideológica nas redes sociais. Direita e esquerda passaram a interpretar símbolos populares — tradicionalmente associados à sorte, à esperança e à renovação — a partir de lentes políticas, esvaziando seu sentido original e transformando gestos banais em manifestações de posicionamento ideológico.
O estopim foi um comercial de uma popular empresa de chinelos que sugeria não entrar no novo ano com o “pé direito”, mas com os dois pés. A mensagem, publicitária e inclusiva por natureza, foi imediatamente capturada por usuários que enxergaram ali um suposto ataque simbólico à direita política. A reação não demorou: críticas, boicotes e acusações de militância ideológica passaram a circular com intensidade.

Na outra ponta, uma rede de lojas cujo símbolo é a Estátua da Liberdade publicou mensagem defendendo explicitamente “entrar com o pé direito”, o que foi prontamente celebrado por perfis conservadores e criticado por setores da esquerda, que acusaram a marca de reforçar discursos políticos disfarçados de tradição cultural. Em poucos dias, o que era apenas uma metáfora de virada de ano se transformou em mais um marcador de identidade política.
Esse embate, no entanto, revela algo mais profundo: a apropriação política de práticas que, no fundo, pertencem ao campo da superstição. Entrar com o pé direito ou esquerdo, vestir branco ou amarelo, comer lentilha, pular ondas, guardar sementes ou fazer simpatias são rituais ancestrais, repetidos ano após ano, independentemente de ideologia. São gestos humanos, simbólicos, que expressam desejo de controle sobre o futuro em momentos de incerteza.
Ao politizá-los, direita e esquerda não apenas esvaziam seu caráter cultural, como reforçam uma lógica perigosa: a de que até a esperança precisa escolher lado. A política, nesse contexto, passa a ocupar um espaço que não lhe pertence — o da fé, do sentido e da transcendência — alimentando-se da fragilidade emocional das pessoas para reforçar discursos de ódio, pertencimento cego ou idolatria a líderes e narrativas.
Há, porém, um contraste inevitável. Enquanto superstições prometem sorte, prosperidade ou proteção por meio de gestos simbólicos, a tradição cristã afirma que a graça não é convocada por rituais, mas recebida pela fé. A bênção não está no pé com que se entra no ano, na cor da roupa ou no alimento à mesa, mas na entrega consciente da vida a Deus.
Em um cenário marcado por disputas ideológicas exaustivas, talvez o gesto mais contracultural seja justamente retirar a política do lugar de salvação que ela insiste em ocupar. Um “Ano Novo de verdade” não nasce de slogans, campanhas publicitárias ou provocações digitais, mas da decisão pessoal de confiar o futuro a Cristo, permitindo que Ele conduza os caminhos — inclusive em meio às incertezas.
Quando a política tenta substituir a fé, ela se transforma em idolatria. E toda idolatria, mais cedo ou mais tarde, cobra um preço alto. Em 2026, mais do que escolher entre o pé direito ou esquerdo, talvez seja hora de caminhar com os dois pés firmados naquilo que não muda com eleições, tendências ou algoritmos: a esperança que não depende de ideologia, mas de Cristo.
Fonte: Portal A10+