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A disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) chegou a um ponto em que a guerra política passou a se alimentar também de informações falsas, versões distorcidas e acusações ainda sem comprovação definitiva. O problema não está apenas na existência das chamadas fake news, mas na maneira como elas são incorporadas ao discurso dos próprios candidatos — ou utilizadas por eles para atacar o adversário. Nos últimos meses, Flávio foi desmentido em declarações sobre sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, enquanto Lula, na entrevista ao Canal Livre, da Band, acabou repercutindo como fato uma história que a própria entrevistadora identificou como fake news: o suposto plano de Flávio para retirar Nossa Senhora Aparecida da condição de Padroeira do Brasil.
No caso de Flávio Bolsonaro e o Banco Master, há uma sequência documentada de mudanças de versão. Antes da divulgação das mensagens entre o senador e Daniel Vorcaro, Flávio negava que existisse uma relação entre ele e o banqueiro. Em 13 de maio, questionado pelo Intercept Brasil sobre os pagamentos negociados para o filme Dark Horse, respondeu: “De onde você tirou essa informação? É mentira”. Horas depois, diante da divulgação de documentos, áudios e mensagens, reconheceu que havia negociado patrocínio com Vorcaro para a produção do filme sobre Jair Bolsonaro. A Folha registrou posteriormente que Flávio admitiu ter pedido dinheiro ao banqueiro e passou a sustentar que se tratava de um “patrocínio privado para um filme privado”.

O problema político não termina aí. Antes de reconhecer a relação, Flávio havia associado repetidamente o Banco Master ao campo adversário. Em março, segundo a Folha, afirmou que a relação do banco com a direita estava “longe de chegar perto” e, posteriormente, publicou que “O Banco Master é do Lula”, além de relacionar o caso a outros escândalos atribuídos ao petista. Depois que as mensagens com Vorcaro vieram a público, porém, a existência de uma relação direta entre os dois deixou de ser uma questão de interpretação política: ela passou a ser demonstrada por mensagens e áudios, inclusive com negociações sobre pagamentos para o filme. O Aos Fatos contabilizou, em levantamento publicado em setembro, 43 declarações consideradas falsas de Flávio relacionadas ao seu envolvimento com Vorcaro.
Do outro lado, Lula encontrou na história de Nossa Senhora Aparecida uma oportunidade para atacar Flávio — mas acabou reproduzindo uma informação que não estava comprovada. A origem do episódio foi uma notícia segundo a qual Flávio apoiaria a retirada do título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. A GloboNews posteriormente corrigiu a informação e pediu desculpas pelo erro. O Tribunal Superior Eleitoral também determinou a remoção de publicações relacionadas à narrativa, classificando como “notoriamente inverídico” o núcleo factual de que Flávio ou sua família teriam proposto, articulado ou apoiado a retirada do título.
Mesmo assim, no Canal Livre, no domingo (27), Lula foi questionado diretamente sobre o assunto. A jornalista Adriana Araújo observou: “Mas foi uma fake news, presidente!”. Lula respondeu: “Eu não sei se foi fake news. O dado concreto é que isso está na rede social muito forte!”. Na sequência, afirmou: “Ela vai ser a padroeira do Brasil porque o povo quer e tem fé”. Lula ainda disse que “mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável” e associou o episódio a um antigo caso envolvendo um religioso que chutou uma imagem da santa. O problema é precisamente este: a intensidade com que uma informação circula nas redes sociais não transforma uma informação falsa em verdadeira.
É nesse ponto que a eleição revela uma contradição maior. Flávio foi confrontado com uma informação falsa sobre Nossa Senhora Aparecida e corretamente a classificou como fake news; Lula, por sua vez, tinha diante de si a mesma informação e, mesmo alertado durante a entrevista de que ela era falsa, decidiu relativizá-la porque “está na rede social muito forte”. No episódio do Master, ocorre uma dinâmica inversa: Flávio utilizou acusações contra Lula e aliados para construir uma narrativa política enquanto, posteriormente, documentos mostraram que ele próprio mantinha relação com Vorcaro. São mecanismos diferentes, mas com um mesmo efeito: o fato perde espaço para a narrativa eleitoral.
A questão mais grave, portanto, não é simplesmente saber quem mente mais. É perceber que a campanha passa a funcionar em um ambiente no qual cada lado seleciona a informação que melhor serve à sua narrativa e descarta, relativiza ou combate aquilo que prejudica sua própria imagem. Flávio transformou o Master em instrumento para acusar Lula e a esquerda, enquanto precisou explicar posteriormente suas próprias conversas com Vorcaro. Lula, ao atacar Flávio por causa de Nossa Senhora Aparecida, acabou repetindo uma informação que havia sido publicamente corrigida. Quando candidatos à Presidência tratam a verdade como munição seletiva, quem perde não é apenas o adversário: é o eleitor, que precisa decidir em meio a versões fabricadas para provocar medo, indignação ou rejeição.