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A movimentação de prefeitos ligados à base do governo estadual — inclusive quadros do PT — em direção ao apoio à reeleição do senador Ciro Nogueira (Progressistas) revela mais do que gestos isolados de simpatia política. Trata-se de um fenômeno que expõe a lógica pragmática da política municipal no Piauí, onde a sobrevivência administrativa, o acesso a recursos e a capacidade de entregar resultados à população frequentemente se sobrepõem às fronteiras ideológicas formais.
O episódio mais recente ocorreu em Murici dos Portelas, onde a prefeita Ana Lina (PSD), partido do pré-candidato ao Senado Júlio César, surpreendeu ao declarar publicamente apoio a Ciro Nogueira durante solenidade oficial. Em tom de gratidão, ela destacou a presença constante do senador no município e a destinação de benefícios ao longo dos anos, afirmando que Ciro “não aparece apenas em véspera de eleição”. A fala, além de simbólica, evidencia como prefeitos avaliam o capital político não apenas pelo alinhamento partidário, mas pela capacidade concreta de atender demandas locais.

Situação semelhante envolve o prefeito de Passagem Franca, Saulo Trajano (PT), que publicou registro ao lado de Ciro Nogueira durante agenda do senador pelo interior. O gesto ganha relevância diante do contexto recente em que o PT estadual suspendeu o prefeito de Cajueiro da Praia, Felipe Ribeiro, justamente por declarar apoio ao senador progressista. A diferença de tratamento, contudo, expõe a complexidade interna do partido e a dificuldade de impor uma disciplina rígida em realidades municipais diversas.
Nesse cenário, a declaração do secretário estadual do Agronegócio, deputado licenciado Fábio Xavier (PT), funciona como um freio ao acirramento interno. Ao reconhecer publicamente a força política e a atuação de Ciro Nogueira, Xavier afirmou que não fará qualquer tipo de retaliação a prefeitos ou lideranças de sua base que optem por apoiá-lo. Para o secretário, esses movimentos refletem acordos construídos a partir da realidade local e do histórico de parcerias administrativas, e não necessariamente uma ruptura ideológica.
Há, portanto, duas leituras possíveis para esse movimento. A primeira é estratégica: prefeitos buscam valorizar sua posição política junto ao próprio Governo para angariar mais ações e recursos, ampliar margens de negociação e garantir mais apoio — seja por emendas, articulação em Brasília ou influência institucional — para atender demandas de seus municípios. A segunda é mais simples e igualmente plausível: declarações espontâneas de segundo voto, comuns em disputas ao Senado, onde alianças cruzadas sempre fizeram parte da tradição política brasileira.
O pano de fundo, contudo, é incontornável. Ciro Nogueira construiu, ao longo de sucessivos mandatos, uma rede sólida de relações municipais, marcada pela destinação de recursos, presença frequente no interior e capacidade de articulação. Nesse contexto, o atual movimento de adesão — inclusive entre gestores de partidos ideologicamente distantes — surge menos como traição partidária e mais como consequência natural de uma política baseada em resultados concretos.
O caso de Cajueiro da Praia sintetiza essa tensão. Mesmo após anunciar sua saída do PT, Felipe Ribeiro reapareceu ao lado do governador Rafael Fonteles e do presidente estadual da sigla, Fábio Novo, em gesto de recomposição institucional. O episódio evidencia que, na prática, a política piauiense opera em múltiplos níveis: o discurso partidário convive com acordos locais, e a fidelidade ideológica disputa espaço com a necessidade de governar.
Em ano eleitoral, com pré-campanha deflagrada há pelo menos um ano, esses sinais tendem a se intensificar. Mais do que uma debandada formal, o que se observa é um rearranjo silencioso, no qual prefeitos recalculam alianças a partir do que consideram mais vantajoso para seus municípios. Nesse tabuleiro, Ciro Nogueira aparece como um polo de atração — não por acaso, mas por uma trajetória que, goste-se ou não, produziu vínculos políticos duradouros no interior do estado.
Fonte: Portal A10+