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A professora e pesquisadora Olivia Perez, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Piauí (UFPI), foi a convidada do A10Cast deste sábado (29). Na conversa, ela avaliou as repercussões políticas da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que determinou o cumprimento da pena de 27 anos de prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro na trama golpista, além de avaliar sobre um possível futuro da esquerda e da direita.
Durante entrevista, Perez classificou como momento “histórico” a prisão de Bolsonaro e que, segundo ela, marca uma mudança importante no tratamento institucional dado a tentativas de ruptura democrática no país. Segundo a pesquisadora, a democracia do Brasil é marcada por instabilidades.
“Um momento histórico, primeiro que nossa democracia é recente e com muita instabilidade e uma história política também de muitos golpes e de ausência de punição em relação aos golpes. A gente vive um momento histórico tanto pela prisão do Bolsonaro, quanto pela prisão também de militares e um recado importante que é o seguinte, já que concordamos que nosso regime é a democracia, esse modo de governo não pode ser ferido, ele não pode ser desrespeitado por um candidato que não ganha. Quando o Bolsonaro ganhou, o meu candidato não ganhou e nem por isso que ele e seus apoiadores destruíram o Congresso Nacional, e agora quando o Bolsonaro não ganhou na eleição do Lula, eles fizeram o 8 de janeiro essa tentativa de golpe”, disse.
Ao ser questionada se a prisão do ex-presidente poderia reduzir a polarização política, ela disse que o Brasil sempre foi polarizado, antes mesmo do bolsonarismo, e, segundo ela, democracias consolidadas, como a dos Estados Unidos, também convivem com polarização.

“Primeiro que eu sou um pouco do contra em vários termos que a imprensa e o senso comum usa, e um deles é polarização. A gente sempre teve eleição polarizada, mas antes do Bolsonaro era com o PSDB, as pessoas são polarizadas, como o Marx já explicou, na luta de classes entre proletários e burgueses, a gente está de lados opostos, democracias muito mais consolidadas, como a dos Estados Unidos, que é o que a gente tenta copiar às vezes, mas também é polarizada, então existem dois polos. Eu acho que a gente não pode confundir o termo polarização com violência política”, disse.
Para ela, o problema atual é outro: “Não estamos vivendo apenas polarização, mas violência política”.
A professora cita ainda que essa violência, fomentada por setores da extrema direita, já produz impactos na sociedade. “Na escola da minha filha, debates sobre gênero e política são cerceados. Há uma ofensiva contra direitos civis e liberdade de expressão”, comentou.
Futuro da Esquerda e Direita
Em sua análise, a pesquisadora reforça que o confronto entre esquerda e direita é histórico e persistirá independentemente da prisão de Bolsonaro. O que está em disputa agora é quem ocupará o espaço deixado pelo ex-presidente. Para ela, a tendência é que um perfil de direita mais radical tente herdar esse protagonismo.

“Acho que quem vai tentar ocupar ainda é uma direita violenta, representada por algum dos apoiadores do Jair Bolsonaro, que pode ser até pela própria Michelle Bolsonaro. Lembrando que muita gente se pergunta como é que Bolsonaro chegou ao poder? Eu me pergunto como é que Bolsonaro demorou tanto para chegar ao poder, porque o Brasil é um país conservador […] Se eu pudesse fazer alguma previsão, eu apostaria que esse espaço voltará a ser ocupado por uma direita extremista, violenta, como essa direita representada pelo Jair Bolsonaro e tanta gente que segue ele”, analisou.
A professora acredita ainda que ‘discursos extremistas’ vão continuar tendo espaço.
Sobre possíveis nomes que devem emergir no cenário eleitoral, Olívia Perez vê renovação tanto à esquerda quanto à direita. Ela lembra que a esquerda tem novas lideranças, especialmente entre as juventudes, e cita nomes como Fernando Haddad, Guilherme Boulos e Erika Hilton, a quem define como “minha aposta para todas as coisas do mundo”.

Já na direita, ela destaca o nome de Michelle Bolsonaro, que, segundo ela, reúne capital político próprio e o da família Bolsonaro, além de dialogar com demandas contemporâneas por diversidade. “[Michele] É um ótimo nome. Ela veio nesse discurso de que é importante que a diversidade esteja no poder, que é um discurso construído pelos movimentos sociais, principalmente pelos feminismos negros, mas é um discurso que já está espalhado pela sociedade, inclusive pela direita, de que é importante mulheres no poder. Ela é uma baita articulista, carrega todo o capital político do Bolsonaro e da própria família Bolsonaro. Então é um excelente nome para quem quiser apostar nessa direita extremista”, disse.
Fonte: Portal A10+