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Enquanto o discurso político segue dividido entre direita e esquerda, o Congresso Nacional mostrou novamente que a união costuma aparecer quando o assunto é ampliar poder político e reduzir mecanismos de controle eleitoral.
Nesta semana, deputados e senadores derrubaram vetos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e aprovaram medidas que, na prática, flexibilizam regras criadas justamente para evitar uso político da máquina pública em ano eleitoral.

A principal delas permite que bens, equipamentos, máquinas e benefícios continuem sendo transferidos a estados e municípios nos três meses anteriores às eleições — período tradicionalmente protegido pela Lei Eleitoral para impedir favorecimento político.
O governo Lula vetou a proposta alegando risco de inconstitucionalidade e ameaça à lisura do processo eleitoral. Mesmo assim, o Congresso derrubou o veto.
Na prática, a mudança abre espaço para prefeitos, parlamentares e grupos políticos fortalecerem suas bases eleitorais usando estruturas públicas em pleno ano de campanha. A própria Transparência Brasil alertou para o risco de uso indireto de órgãos federais, como a Codevasf, para distribuição de equipamentos e benefícios com potencial eleitoral.
O mais simbólico foi a composição política da votação. Partidos da oposição bolsonarista e setores da própria base governista acabaram caminhando juntos.
PL, PP, Republicanos, MDB, PSD, União Brasil e até parte de legendas alinhadas ao Palácio do Planalto apoiaram medidas que reduzem barreiras eleitorais históricas.
O discurso oficial foi o de “ajudar os municípios”. Mas críticos afirmam que o Congresso está, na verdade, ampliando o poder das máquinas políticas locais às vésperas de 2026.
O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) chamou a medida de “combo de permissividade para compra de votos”. O alerta não veio apenas da oposição ao Centrão. Técnicos legislativos e especialistas em transparência também apontaram risco de enfraquecimento do controle eleitoral.
No mesmo movimento, a Câmara aprovou outro projeto polêmico: um pacote de benefícios para partidos políticos.
A proposta:
- dá até 15 anos para partidos quitarem multas;
- dificulta cobranças da Justiça Eleitoral;
- flexibiliza punições;
- abre brecha para disparos automatizados de mensagens em massa.
Na prática, o sistema político brasileiro decidiu aliviar regras justamente para quem controla eleições, campanhas e recursos públicos.
O episódio revela um fenômeno cada vez mais evidente em Brasília: a polarização muitas vezes funciona no discurso, mas desaparece quando interesses estruturais da classe política entram em jogo.
À medida que 2026 se aproxima, Congresso, partidos e grupos políticos começam a reorganizar as engrenagens eleitorais — e fazem isso ampliando espaço para atuação política da máquina pública e reduzindo mecanismos de contenção criados ao longo das últimas décadas.